quinta-feira, 18 de julho de 2013

Cena IX - As C.T. no INATEL (1975/1976)


O Futebol das C.T. no difícil INATEL 


Para desanuviar a mente e limar o físico, aceitei participar na equipa de futebol de onze, das Construções Técnicas. A empresa estava inscrita, e ia participar, no campeonato do INATEL do distrito de Lisboa (1975-1976) e, além da malta da Sede e do Estaleiro Geral de Alverca, também contavam com gente da obra de Alhandra.

Eis alguns nomes de quem me lembro:

Dirigentes: Revés; Pedroso; Salvado

Treinador: Mário

- da Sede: Gerardo, Caldeirinha, Pires, Vítor Reis, Talidomida, Fernando (Pechincha) e Olivério.

-  do Estaleiro: Vítor Ramos e Abreu.

- da obra de Alhandra: Rogério Feio, Caria Luís, Cartaxo[1], Virgílio Ramos, Valada, Armindo, Mário, Vinagre e o “Aranha Negra”.

Aquele cromo do “Aranha Negra” era o capataz Monteiro que, em certo jogo, insatisfeito com o lugar de suplente que lhe fora atribuído, e após ter visto o Gerardo dar um valente frango, desatou aos murros no banco, gritando:

― Eh pá! O que é isso? Eu cortava já os tomat..s se alguma vez dava um frango desses!

Atónito perante tal cena, o seccionista Manuel Pedroso, que hoje – por impedimento do Mário - acumulava com as funções de treinador, deu ordem de saída ao Gerardo e fê-lo substituir pelo Monteiro. Em conclusão digo que, do resultado de 3-3, passámos a 3-6 em pouco mais de vinte minutos. O guardião, de preto vestido e a quem nesse dia – talvez pela semelhança do equipamento com o russo YASHINE - os espetadores apelidaram de “Aranha Negra”, de cada vez que se lançava ao solo levantava uma tal nuvem de poeira que ninguém mais via a bola, a não ser... no fundo das redes. É que o diabo do Monteiro tinha a promessa do treinador Mário de que seria ele o titular da baliza, pelo menos naquele jogo. Ora, devido a qualquer falha na transmissão de poderes, que ocorrera na véspera, entre o Mário e o Pedroso, toda a desorganização descambou em goleada. Foram "só seis", porque a hora já ia adiantada, senão, se aquele keeper tivesse jogado desde o início, ninguém duvidava que os nossos adversários, mesmo a passo, teriam chegado à vintena.

Era um campeonato por séries, muito disputado. De tal modo assim era que, entre doze equipas, não fomos além do quinto lugar, tendo ficando, desde logo, arredados da lista dos dois apurados em cada série. Pelo menos deu para conhecer (superficialmente) outras equipas e outras gentes; algumas de mau porte, como eram os jogadores da Calçada dos Mestres, do Tenente Valdez e do Sindicato do Estivadores que, para eles, desporto sem umas valentes murraças, não era desporto nem era nada.

No defeso, chegámos a deslocar a Vale da Pinta, onde jogámos contra a União, tendo nós CT vencido por 3-1. Mas foi mais um jogo para convívio e justificar umas sandes e uns copos, nada mais.





[1] Este jogador (Cartaxo), jogou no Alhandra, Varzim, F.C.Porto, Olhanense e Estoril
Texto extraído do VOL. II, de "DEGRAUS e MARCOS da VIDA"

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Cena VIII - Na Despedida da Dª Nazaré (1969)

Jantar de Pré-Revolução na "Casa do Alentejo" 


A assistente social das Construções Técnicas, Dª Nazaré, fora designada para fazer parte da estrutura da delegação da empresa em Angola. Ela era uma pessoa muito agradável, de trato fácil e sempre disposta a colaborar com toda a gente, independentemente da categoria profissional de cada um. Então, de modo a prestar homenagem e manifestar apreço pelo modo como exercera a sua atividade, nada melhor que presentear a senhora com uma festa de despedida.

Não estou bem certo das pessoas que organizaram a festa, mas não devo andar muito longe da realidade se avançar com os nomes da esquerda avançada das C.T, mesmo antes do 25 de Abril. Seriam o engº Brás Menezes; o dr. Vítor Ramalho; o fotógrafo Eduardo Franco e o jornalista da casa, Carlos Alberto Correia. O local escolhido foi a Casa do Alentejo, ali em plena baixa lisboeta. Com um acolhedor ambiente, o vasto salão de festas, no primeiro andar, era o cenário ideal para que se desse largas à imaginação de cada um: a discursar; manjar e, depois, em jeito de remate, entoar algumas melodias da moda. Desde que não ferisse os ouvidos ou a sensibilidade dos presentes, todo o resto valia. Mas não especulemos: no fim, logo se veria.

No repasto, é possível que tenham estado presentes mais de uma centena de pessoas, mas isso não era o mais importante. O que importava era o reconhecimento e o carinho que todos queriam demonstrar à senhora. Depois de os promotores terem oferecido à Dª Nazaré um esbelto ramo de flores, alguns convivas usaram da palavra, evocando a qualidade da ação desenvolvida pela homenageada, ao longo dos anos.

E para que a festa terminasse em apogeu, alguém ligado à organização e com tendência para a irreverência e rebeldia, irrompeu com as “Janeiras”, para prosseguir com: “Vejam bem” e terminar, de modo brusco, com a “Pedra Filosofal”, do António Gedeão. Porquê, bruscamente? Porque, na época, aquelas cantigas de intervenção e protesto estavam proibidas. Quem se atrevesse a cantarolá-las, independentemente do bom ou mau timbre de voz, sujeitava-se a ir, de charola, passar uma temporada numa cadeia especialmente dedicada aos irreverentes ao regime. E quando alguém, a sério ou em jeito de brincadeira de maus gosto, cochichou que de dois fulanos, de fato e gravata, com cara de agentes da polícia secreta, estariam a rondar a porta de entrada, o grupo de cantores de ocasião, achou que a serenata ficaria por ali, não fosse alguém ter que ir fazer a digestão do jantar para a António Maria Cardoso.

Quanto a mim, o ambiente tornara-se pesado, e eu já estava a ver quando é que os estranhos engravatados subiam aquela escadaria para deitar a luva a alguns de nós. Foi um fim de festa um tanto ou quanto anárquico, mas todos: promotores, homenageada e homenageadores, saíram dali ilesos e livres, creio que devido à sensata e atempada desmobilização do sarau musical.

Extrato de "DEGRAUS e MARCOS da VIDA", Vol. II
 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Cena VII - O Muleta Negra no Carregado


Onde se fala de cromos, excêntricos e golpistas

- Santos: o Muleta Negra -    

À semelhança do que acontecia nas outras obras onde trabalhei na adolescência, já relatadas no Volume I, também nestas apareciam aqueles indivíduos que, por isto ou por aquilo, patenteavam uma certa excentricidade; porque fugiam ao comum comportamento do cidadão normal, eram rotulados de cromos, excêntricos ou morcões. Durante a minha estada nesta obra, entre 1966-1969, muitas peripécias ocorreram, mas seria fastidioso esmiuçá-las todas. Esta, que se segue, é a que, por agora, pretendo realçar. 

 Este nosso amigo era um fulano que se chamava Artur Santos, mas que toda a gente o conhecia por Muleta Negra. Era assim alcunhado devido a dois fatores: um, porque ele funcionava como muleta no suporte à empresa, em termos de angariação de pessoal para as obras, e como a sua tez, por demais negra, devido ao surro, era evidente… O outro motivo, terá sido devido ao facto de existir na altura um toureiro de meia-tijela, que apareceu por aí com aquele pseudónimo. De tão fraco ele era, que desapareceu de cena tão lesto como aparecera. Este Santos tinha como função principal percorrer certas zonas do país, na angariação de mão-de-obra para as obras em curso. Ele tinha um prémio de 50$00 por cada trabalhador que apresentasse no escritório da obra do Carregado, para isso, e para facilitar a mobilização, ele prometia mundos e fundos que, como se depois se constatava, não poderia garantir. Por isso é que, de vez em quando, ele aparecia na obra com os olhos amarrotados e, ao vê-lo naquele estado, já todos sabiam que a gama de aparelhos de televisão, frigoríficos, tratamento de roupas e até mulheres, por ele prometidas, não tinham sido distribuídas pelas Construções Técnicas aos trabalhadores por ele angariados.

O Muleta Negra, vindo de uma obra da Somague, creio que da Barragem do Carrapatelo, queria fazer crer a todos com quem falava que, antes de ser barragista, fora empregado da Citroen, em França, onde tinha a profissão de experimentador de carros. Ora eu estou em crer que este mentiroso compulsivo, nem um Dumper sabia conduzir, quanto mais um Citroen boca-de-sapo…

O Santos protagonizou outros episódios, noutras obras que, a seu tempo, serão narrados.
 


Extrato do VOL.II de "DEGRAUS e MARCOS da VIDA"

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Cena VI - Um Mustaphá Enjoativo



- Um francês saturado de tanto “Mustaphá” -
Na obra das Construções Técnicas, na Central Termoelétrica do Carregado, havia uma equipa de franceses, funcionários da "Bergeron", que tinha a seu cargo a montagem da Estação Elevatória da Tomada de Água e da 2ª Estação de Bombagem. Eram eles o Robert, que era o chefe, o Charles e o Jacques. O meu chefe, Virgílio Picanço, encarregado geral da zona da Central, homem com muitos anos de Marrocos e de França e, como tal, falava bem a língua de Vítor Hugo, passava por lá, pela 2.ª Estação de Bombagem e entretinha-se um bocado na conversa com eles. Também eu, como subordinado do Picanço, por lá passava todos os dias, já que era pessoal da minha equipa que dava apoio de construção civil àquela empresa francesa. Por isso, foi com toda a naturalidade que se estabeleceu um clima bastante cordial entre nós C.T. e a Bergeron. 
Ainda que qualquer dos gauleses bebesse bem, o Robert, que era o chefe e tinha que dar o exemplo, era o que bebia mais. Era quase sempre brandy Sandeman, bebido pela garrafa, cujo gargalo, desde cedo, começava a inclinar. Pelos vistos e pela quantidade, dava a impressão de que aquilo seria o aperitivo para o almoço, para o lanche e, também, para o jantar. Esta equipa francesa jantava num restaurante do Carregado, "O Calçada", onde trabalhava o Alexandre, um rapaz transmontano que, anos depois, se estabeleceu no Cartaxo, e onde, ainda hoje, explora um restaurante com o nome de "O Transmontano". Ele conheceu-os bem, especialmente nas noitadas em que tinha que se manter a pé, até fora de horas, a aturar aquelas esponjas. A título informativo, também direi que o cartaxeiro António Simão, operário das C.T., trabalhou, a partir daqui, com esta equipa francesa, durante alguns anos, em vários países de África. 
Uma vez, convidara-me para jantar com eles nesse tal restaurante do Carregado, a fim de comemorar já nem sei o quê. No fim do repasto, já em ambiente de copofonia, cai na asneira de divulgar aos fulanos que, há dois anos atrás, fora vocalista de um conjunto Pop e, por isso, até sabia umas canções francesas, daquelas que estavam em voga. Resultado: nunca mais me deixaram em paz enquanto não comecei a cantarolar. Comecei pelo “Tchim, Tchim, a la Santé”, de Richard Anthony, que foi amplamente aplaudida. Para segunda canção escolhi "Donne Moi Ma Chance", do mesmo cantor, que, tal como a primeira, foi recebida com calorosos aplausos; depois, em jeito de remate, arranquei com “La Salsa del Pomodoro”. Esta, que era a canção em que eu mais confiança depositava, ficou-se pela intenção.
Foi mesmo um sol de pouca dura, porque o Robert, já pingado, interrompeu a minha interpretação, alegando que, de bom grado, escutaria tudo o que eu quisesse cantar: desde um qualquer Fado, até uma qualquer canção de "Mireille Mathieu"; Johnny Halliday; Charles Aznavour, ou mesmo do mal afamado Antoine... todas, menos esta, que falava insistentemente no Mustaphá até à exaustão. E o Robert, espumando da boca, dispôs-se a explicar o porquê de tanta aversão.
Trabalhara ele, há uns três anos atrás, num empreendimento industrial em Marrocos, mais propriamente na Mohammedia, perto de Casablanca. Quando aí alugou um T0, numa residencial airosa, na zona baixa da cidade, estava longe de supor que o Alá lhe tinha reservado um lugarzinho mesmo nas entranhas do Inferno. É que, mesmo por debaixo daquele vistoso apartamento, jazia um Bar. Mas não era um Bar qualquer, já que, tendo em conta que se tratava de um país muçulmano, aquele estabelecimento tinha um horário por demais alargado. Pudera, era propriedade do chefe da polícia local... É verdade. Num Bar que abria à meia-noite e fechava às cinco da matina, uma das novidades, que servia de passatempo e chamariz para a clientela, era uma "moderna" máquina de discos, que não parava de tocar toda a santa noite e madrugada. Mas o principal problema do Robert não apenas o ruído em si, mas, pior que isso, era a cantilena que era quase sempre a mesma, isto é, "vira o disco e toca a mesma". Dava a impressão, que não havia outra música no raio da maquineta senão a que falava do diabo do Mustaphá. É evidente que o Robert, depois daquele massacre de umas quantas horas em branco, só conseguia pregar olho lá para perto das quatro ou cinco da manhã. Mas, segundo me disse o francês, o pior, o que mais o incomodava, era o facto de o disco tocado ser quase sempre o mesmo. Estava mesmo a ver-se, que a música preferida daqueles marroquinos que frequentavam o bar era aquela da “La Salsa del Pomodoro”, criação do Bob Azzam e cujo refrão fala do Mustaphá, repetindo-o vezes sem conta: "Mustaphá, ya Mustaphá.... Dizia-me o nosso amigo Robert, que ainda tentou convencer o proprietário do Bar a vender-lhe o disco por bom dinheiro, coisa que o outro não aceitou. Se aquela era a música preferida da clientela, como é que o dono ia desfazer-se do disco e sujeitar-se a que a casa ficasse às moscas? Mas a verdade é que o Robert tinha razões de sobra para odiar, para sempre, aquele maldito disco.
Voltando à realidade, demo-nos conta de que o nosso jantar já tinha sido digerido fazia tempo, e que, de tanto se falar em Mustaphá, Marrocos, Ramadão e mais as secas areias do deserto, foi sem estranheza que vimos o Robert ordenar ao Alexandre que trouxesse três garrafas de Champagne, para ser bebido por aquelas sequiosas gargantas, ao improvisado som da "Marselhesa". Mas... Mustaphá, jamais!

Autor: José Caria Luís

Obs. Texto extraído do Vol. II do "DEGRAUS e MARCOS da VIDA". 


terça-feira, 2 de julho de 2013

Cena V - Nas C.T. (1966) - Os Três Mosqueteiros Contra o Rosa Preta


- O trio: Muleta Negra, Baldaia e o Bigodes –

Longe dos grandes centros, aquela malta, em termos de divertimento, não tinha muito por onde escolher. Pelo menos durante a semana não tinham alternativas à taberna e casa de pasto do Sabino ou à do Machado, na minúscula povoação da Vala do Carregado.
 No Sabino, já eles não paravam tanto, porque este atlético chauffeur de camião, ex-jogador de futebol e com um caparro[1] que metia respeito, malhava nos desordeiros sempre que a isso o obrigavam. O Machado, já mais velhote e meio abatido fisicamente, tolerava, com brandura, os comportamentos menos cívicos que os clientes mais excêntricos teimavam em adotar.
Com especial destaque para este trio, era então na tasca do Machado que se passava o serão. Ora contando anedotas, ora cantando, jogando à sueca ou a armar desordem, era como se estivessem em suas casas. No entanto, os clientes do Machado não eram apenas trabalhadores da obra; os moradores locais também passavam ali uns bocados de serão, a jogar cartas. Um deles, o vizinho Rosa Preta, pescador de profissão e ex-guarda redes do Benfica que, devido aos muitos anos de vizinhança e assiduidade, era considerado pelo Machado como se fosse da casa. Basta dizer que, de cada vez que o Rosa precisava "molhar  o bico", não fazia o Sr. Machado perder o seu precioso tempo, já que ele próprio se deslocava até ao barril e deste vertia para a caneca a quantidade de tintol que considerava suficiente para satisfazer a sua momentânea gula. Tudo em família, portanto.

Aos sábados, dias em que se recebia a semanada, a noite trazia sempre engulhos tais, que o Sr. Machado sentia que, em cada um que passava, lhe roubava, se não anos, ao menos meses de vida.
E foi assim que, naquele conhecido mau ambiente, teve início mais uma saga noturna. Desta vez, os protagonistas do espetáculo, para não variar, foram os mesmos do costume, exceto o ex-desportista que, por ser considerado como fazendo parte da mobília da casa, evitava meter-se em sarilhos.
Quando o trio de Mosqueteiros entrou na taberna, deu para perceber que a paz do Senhor… Machado tinha os segundos contados. O Muleta Negra (Artur Santos) e o Raul Baldaia, em passo lento, caminharam ambos rumo ao balcão, onde se encostaram aguardando atendimento. O terceiro do grupo, o Bigodes, que era carpinteiro da equipa do Daniel, situou-se no espaço livre entre mesas. Com uma certa destreza manual, começou a ensaiar um estranho rodopio com aquela bengala que costumava usar como talismã, ao mesmo tempo que berrava para os circunstantes:

― Calai-vos gandulos, se não, f***-vos a cornia!

O Sr. Machado, receando que aquele discurso viesse a ferir algumas suscetibilidades, rogou, com voz trémula, ao recém-chegado para que se acalmasse, moderasse a linguagem e terminasse com aquelas manobras da bengala, mas o Bigodes não o ouvia e voltava a repetir:

― Calai-vos gandulos, se não, f***-vos a cornia!

O nosso conhecido Rosa Preta, que estava num pacato jogo de cartas, começou a impacientar-se e levantou-se. Já de pé, interrompeu aquelas frases obscenas, dizendo ao Bigodes:

― Ó chefe! Pare já com essa linguagem; não repita mais isso!

Como resposta, ouviu assim, por parte do provocador:

— Cala-te aí já, ó gandulo, se não, f***-te a cornia!

 O Rosa nem pestanejou: ao mesmo tempo que lhe arrancava a bengala da mão, espetou-lhe uma valente cabeçada na testa, atirando com o bengaleiro, via porta da rua, para a valeta. Ainda assim, o Rosa achando que o serviço ainda não estava terminado, aprestava-se para sair ao encontro do prostrado Bigodes, quando o Raul Baldaia e o Muleta Negra se entrepuseram entre ombreiras, tentando barrar-lhe o caminho. O Baldaia, talvez para amedrontar e conter o avanço do Rosa, berrou:

— Quem quiser vater no Vigodes[2], tem que passar por cima do meu cadábel!

Foi então que o Rosa Preta, de um salto, cilindrou os cadábeles aos defensores do Vigodes, enquanto este se esforçava para se levantar e ir retaliar sobre o seu agressor. O homem da bengala (agora sem ela), aproveitando o facto de o  Rosa estar ocupado com os outros dois, levantou-se e, puxando de uma navalha de ponto e mola, gritou:

— Agarrem-me! Agarrem-me, senão eu dou um traço[3] no gajo!

Agora, era ver o Santos e mais o Baldaia a tentarem segurar o Bigodes, só que este, sentindo-se agarrado, mudando de tática e de discurso, gritava:

— Não me agarrem! Não me agarrem que ainda é pior! Vós nem sabeis daquilo que sou capaz de fazer! Deslarguem-me, senão dou um traço num!

E os dois amigos deslargaram mesmo o Bigodes, deixando-o à mercê do Rosa Preta. E para terminar a noitada, que já ia longa, teve que o Rosa Preta dar um chuto na navalha e dois murros no toutiço do seu dono. Mas o mais curioso é que a esta última cena já não assistiram nem participaram os dois comparsas Raul Baldaia e o Artur Santos que, aproveitando uma falha na vigilância, se tinham posto ao fresco, em passo de corrida, a caminho das casernas das Construções Técnicas.
Na segunda-feira de manhã, quando, na obra, cada um dos Três Mosqueteiros foi questionado pelo encarregado Picanço acerca das mazelas e nódoas negras que evidenciavam na cara, respondiam argumentando que tinham caído na linha do comboio, quando, na escuridão da noite, tentavam atravessá-la.

Segundo constou, o trio, depois deste famigerado episódio, terá optado por frequentar outras paragens, outros locais, desde Vila Nova da Rainha, Alenquer... até em Vila Franca de Xira chegaram a abancar, mas retornar à Vala do Carregado, estava fora de hipótese. Ao fim e ao cabo, o que eles queriam era estarem precavidos contra qualquer "Rosa" espinhosa, garantindo que, ali por perto, não haveria um qualquer guarda-redes na reforma, mas em forma, como era o caso do Rosa Preta. Para vexame e porrada, já bastava a que os vitimara na última sessão na tasca do Machado. Elas não mataram, mas moeram que se fartaram!
 



[1] Grande porte físico
[2] Era duriense, trajava fato, chapéu, e usava farto bigode com pontas reviradas
[3] Golpe de navalha
 
Obs. Texto extraído do Vol. II, do livro "DEGRAUS e MARCOS da VIDA" (em fase de feitura).

domingo, 30 de junho de 2013

CENA IV - PERA... NÃO SÃO PERAS


Cena IV - Nas C. TÉCNICAS – Carregado (1967)

 

 

- Mas pera… não são peras -

Que numa obra gigantesca como esta, foram aplicadas grandes quantidades de cofragem, não será grande novidade, agora não zelar pelo seu manuseamento e conservação, é que não cabe na cabeça de ninguém. Quando se orçamentavam e estudavam os moldes de madeira para tal fim, contava-se, para aqueles, com um determinado número de aplicações de modo a rentabilizar cada peça e conjunto. Porém, devido a uma confusão havida com uma troca de pera e peras, aquele desiderato não foi observado.

Para fazer descofragens, recorria-se, sempre que possível, a equipas de betonagem, quando estas tinham os normais intervalos entre aquelas tarefas. Desta vez, aquela operação estava a ser desempenhada pela equipa do capataz Raul Baldaia. A altura entre as paredes a descofrar e o chão era razoável, talvez uns dez metros, o que, numa situação destas, mais que aconselhável era premente que os moldes fossem descidos à grua.

O capataz, que estava no chão, ia dar as suas ordens no sentido de começar as tarefas. Digo as tarefas, porque metade da equipa estava no interior para descofrar um teto de tábuas velhas, já com mais de três aplicações, a outra metade estava por fora, na fachada, para descofrar vigas e pilares, feitas com moldes novos.

O Baldaia, no sentido de fazer lembrar aos seus subordinados que era ele quem mandava ali, gritou para um certo fulano, assim:

— Ó das peras, bota abaixo! Bota p’ró chão, carago!

Um pedreiro, homem do Norte, que usava pera e estava na descofragem pelo exterior, largou os moldes de imediato, que caíram da altura de dez metros, tendo-se desfeito no chão, em sarrafos. Imagine-se, pois, qual não foi o espanto do capataz quando viu painéis e mais painéis, praticamente novos, a caírem, que nem tordos, no meio do chão…

 Então, para pôr cobro àquela razia, e furioso pelo que considerou ser um autêntico crime de lesa-empresa, o Baldaia berrou para este peras, dizendo:

— Eiiiiia! O que é que estais a fazer, ó seu grande filho da p***?

O pedreiro da pera, que tinha interpretado a ordem dada como válida, retorquiu:

— Mas então, vossemecê não me disse para botar abaixo, carago?

Diz o Baldaia:

— Não era contigo, carago. Era com o gajo do saco das peras!...

Nestes meios das obras, como noutros, se calhar, há sempre uns engraxadores que, para estarem nas boas graças do chefe, vão - lhe dando umas coisinhas, umas prendas. Ali na zona do Carregado e Alenquer, devido ao facto de muita gente ter um bocadito de horta ou um pomar, tinham o hábito de ofertar fruta, especialmente aos chefes. Mas este operário, para que não o viessem a acusar de engraxador, tinha feito a coisa no máximo segredo. E não fora o incidente dos painéis e ninguém saberia que ele era o bajulador das peras.

Conclusão: pera, não são peras, e, por isso, devido ao trocadilho, além do prejuízo dos moldes que as Construções Técnicas tiveram que suportar, também se descobriu que havia no seio da equipa o engraxador das peras. De um valente saco de peras.
 

 
 Obs. Extraído do VOL. II de "DEGRAUS e MARCOS da VIDA"

segunda-feira, 17 de junho de 2013

EM MARROCOS (1976) - CENA III - A CADA CABEÇA SEU CRISMA

Markovic o "Pedre"
A CADA CABEÇA SEU CRISMA
     De há uns anos a esta parte, com especial relevância a partir da Guerra dos Balcãs, que a chamada Europa Ocidental tem vindo a assistir à crescente importação de jogadores de futebol oriundos da ex- Jugoslávia. Em Portugal, por razões óbvias e, por isso mesmo - não tanto como noutros mercados com "lecas" mais sonantes - também tem tido a sua quota-parte no que ao "acolhimento" das famílias "ic" diz respeito.
     No Benfica, mesmo que os já idos Filipovic e Drulovic tenham passado à história, temos o atual Matic I e os recém-chegados ou vindouros Matic II; Djuricic; Markovic e Sulejmani(c), não restam dúvidas de que, tanto relatores como comentadores vão ter imensa dificuldade quando, em pleno calor dos relatos e análises do todo ou parte, tiverem que pronunciar tais nomes. Certamente, que numa posição mais cómoda estará Jorge Jesus. Este, acusado de ser uma espécie de "língua de trapos" devido à má qualidade linguística que patenteia, especialmente no que concerne às entrevistas dos media, julgo que não terá qualquer handicap em lidar com essa situação, ao tentar identificar os seus pupilos ou a estes se fazer entender.
     E o que pensam vocês, do que me habilita a falar assim? Não sabem, pois não? Mas sei eu! E digo isto, porque já não sou nenhum novato nas andanças linguísticas, em especial no que concerne à difícil "Torre de Babel" que, como se sabe, é o simbolismo maior na área da Construção Civil. 
     A narrativa que se segue vivi-a eu, ali ao vivo, em plena obra, durante a construção da Fábrica de Cimento de Oujda, em Marrocos. E o que muito dessa saga retive e aprendi, não pensem que foi com algum Iman, um el-Caíde, algum Kalifa e, muito menos, com um qualquer Ayatollah, mas sim com um português. Sim. Com um português, mas analfabeto em último grau. Ainda o José Saramago não sonhava compor aquele metaforismo que, referindo-se ao seu avô, diz que: "O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida, não sabia ler nem escrever", e eu já o sentira, pese embora num outro contexto, com uma outra personagem e num outro continente. Mas como tudo o que tem lógica tem explicação, aqui vai a raiz de tudo o que acabei de frasear.
     O cenário estava montado. A rodear o centro de gravidade onde eu me encontrava, e a limitar a extensa planície de terras áridas e avermelhadas, ao fundo daquilo que a nossa vista alcançava, jazia uma extensa cordilheira de montanhas: o médio Atlas. Era nesse centro de gravidade, a que aludi, que acabava de ser implantado um complexo industrial designado por C.I.O.R., ou seja a "Cimenterie de l'Oriental". Esta situava-se a 15 km da vila de El-Aioun e a cerca de 40 km da cidade de Oujda. Era um grande empreendimento, cuja construção estava a cargo das Construções Técnicas, SARL.
     Devido à extensão da obra, foi esta dividida em três zonas geográficas distintas: zona A; zona B e zona C. O que vou relatar, tem o seu epicentro precisamente na zona A.
     Tinha a obra entrado numa fase em que as Fundações estavam praticamente concluídas. Seguia-se agora a Superestrutura que, devido à sua filosofia geométrica, era um tanto mais complexa. Tomando por base uma equipa de Betonagem, cujos operários eram, na sua maioria, magrebinos, em que muitos deles nem sequer sabiam uma única palavra de francês, como poderia o seu chefe (português) controlar e ordenar cada operação e movimento com um mínimo de eficácia? Se ele nem ao menos conseguia soletrar, pronunciar ou decorar cada um daqueles nomes esquisitos para burro, que um dia lhes foram entregues para compor a sua equipa... como iria o capataz, Mário Russo de seu nome, sair-se daquele imbróglio? É que o Mário era analfabeto a 100%, mas, pelo que a seguir se viu, estava longe de ser estúpido. Que solução adotou ele então? Pois, já que ali quem mandava era ele, convocou todo o grupo através de uma estranha sinalética, e com eles reuniu. Dirigindo-se a todos e a cada qual, ditou as suas leis. Sem rodeios, foi direto ao assunto. Formou-os em fila indiana, e sempre que a cada marroquino era perguntado o nome, o Mário Russo, em tom grave e de dedo em riste, ordenava: - "Toi, non Mustaphá, toi, agora, Pedro! Toi, non Rashid, toi, agora, Zé Manel! Toi, non Mohammed, toi, agora, Jaquim..."- E, um a um, lá foi crismando aqueles 12 bárbaros infiéis, contra tudo o que de mais sagrado eles tinham, que era a religião muçulmana e o seu Alá.
     Em jeito de conclusão, direi que o Jorge Jesus, que pode ter um certo grau de iliteracia mas não é burro, irá, com toda a certeza, proceder ao Crisma daqueles rapazes que, embora venham de um país de raiz eminentemente cristã, terão que sujeitar-se a passar pelas malhas do "rebatismo" pela mão de Jesus. Assim, só escapa o já conhecido Matic I, porque o Matic II será, por exemplo, o Jorze; o Djuricic será o Atónhe; o Markovic será o Pedre, e para o Sulejmani(c) será adotado o nome de Jaquim. E se, por acaso, mais vierem, mais crismas ocorrerão. Sem nome percetível e pronunciável é que ninguém fica.
     Posto isto, nem me passa pela cabeça que o JJ não arranje esta, ou uma outra qualquer mnemónica para, a exemplo do que fez o Mário Russo, decorar com maior facilidade os novos nomes  dos seus novos pupilos. Eu fazia-o!


Autoria de José Caria Luís

 Nota: Texto escrito com base no Novo Acordo Ortográfico