quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Cena XIII- No Algarve, O Baile Mandado do Alex

Estávamos no verão de 1971.
Na altura, construíamos a Marina de Vilamoura.
 A pequena Quarteira daqueles tempos, nada tinha a ver com a cidade que hoje se conhece. Todavia, embora fosse pouco mais que uma pequena vila piscatória, já tinha uma grande afluência de turistas, em especial ingleses. Tinha uns três ou quatro hotéis bem credenciados, a par de alguns bares onde, à noite, se podia ir beber um copo com os amigos, ou as amigas. Por isso, não se estranhava que a administração do complexo turístico “AlgarveSol”, situado mesmo à entrada da, então, vila, organizasse, de vez em quando, uns shows, não apenas para os seus "costumeiros" clientes como para outras pessoas de fino porte.
Naquela noite, o anunciado espetáculo prometia. Era nem mais nem menos do que o Alex. Sim, o ultra conhecido Alex e o seu conjunto. O artista, natural de Portimão, tinha um grande cartel no Algarve, mas não só, porque o grupo acabava de chegar de uma longa tournée em França. Além disso, também fizera uma digressão por Angola, atuando em várias cidades e tendo proporcionado alguns espetáculos aos soldados portugueses, ali em missão.
Os convites foram feitos e os convidados apareceram. De entre eles, estavam os meus chefes, os nossos dois conhecidos engenheiros, Brás Menezes e Analídio Dimas. Contudo, o ser-se convidado não bastava: era preciso entrar rapidamente no seio, salvo seja, daquelas beldades que por ali deambulavam, quem sabe se à procura do mesmo, só que de sinal contrário. Muitas delas, mesmo sabendo que o Alex era um inveterado mariconço, não o largavam da mão. As tipas, meio histéricas, rodeavam o artista e este, que não estava a gostar dos apertos, tentava dispersá-las para longe, porém sem êxito. Famoso é famoso. Tem que possuir estofo para lidar com estas situações, senão mais vale ir trabalhar para as obras, como servente. Ao menos, assim, não há miúda que lhe olhe para a tromba, quanto mais apertá-lo.
Mas agora era tempo de deixar de contemplar, embevecidos, aquele magote de mulheraças e agir. Mudar de tática, era o que se impunha numa ocasião como aquela. Tirar partido do convívio do grupo de fêmeas, através da aproximação ao Alex. Para isso, foram-se aproximando, com pés de lã. Chegados, não foi fácil chegar à fala com o astro, já que o mulherio, embora de modo suave, tentava barrar o acesso ao músico. Mas valeu o esforço. Eles, por fim, lá conseguiram. Como era de ver, os dois amigos estavam-se marimbando para o Alex; o que eles queriam era partilhar convívio com as garotas, mas o experimentado BM também sabia que aquele tipo de indivíduos arrasta consigo muita mulherada, por tal motivo, melhor seria fazer do Alex trampolim e, em seguida, pular para o sexo oposto. Então, falando para o Alex, mas olhando para as miúdas, começaram por se apresentar: quem eram, de onde vinham, onde estavam instalados, etc. Daí para a frente, não importa entrar em pormenores, mas apenas realçar o à-vontade, a facilidade com que eles se movimentavam no meio, e os relacionamentos que conseguiram estabelecer com a imensa plateia feminina, está bom de ver. Estava armado o esquema e a noite ia ser deles.
A certa altura, as músicas tocadas deixaram de ser do tipo rockeiras e twisteiras. Depois de uma fugaz passagem com duas músicas em ritmo algo remexido, de raiz africana, como aquela música do Duo Ouro Negro, a “Elisa Aué, Gomaré Saia”, o Alex terá recomendado aos restantes componentes do conjunto para que entrassem em ritmos mais suaves, mais tipo slow e rumba, pelo que, sendo aqueles somente musicados e não cantados, deram ao vocalista Alex vontade de pular do palco e a chance de, também ele, rodopiar nuns bons passos de dança. O que antes fora baile desgarrado e à vara larga, dera agora lugar ao direito e dever de cada qual se agarrar ao par que conseguisse aliciar. E, para espanto da malta, eis que o Alex avança na direção do BM. Mesmo sem o trivial convite, agarrou-se ao jovem engenheiro, como quem entrelaça uma dama, mais parecendo que aquilo era o da Joana. Ora o engº BM, cuja linhagem tinha sido patenteada para emparceirar com o sexo oposto, não gostou muito da cena e, ao mesmo tempo que tentava libertar-se das garras do atrevidote cantor, que já o enlaçava pela cintura e dera início aos primeiros passos de dança, ouviu deste, este jeito de desabafo:
― Ah preto, preto! – guinchou o Alex.
Esta agora foi a melhor! Preto? O BM teria traços de alguma ascendência indiana, mas daí até ser preto, ia uma colossal diferença. Em boa verdade, o Brás Menezes, com aquela tez amorenada e envergando um esbelto fato branco, originava um tal contraste que, comparando as duas cores, o seu rosto seria bem mais preto que branco... Mas, seja como for, ou fosse como fosse, o certo é que o engº Brás Menezes tinha caído no goto do artista do momento: o cantor Alex. Este, sentindo uma grande fobia pelo sexo oposto, preferia um par masculino. E, ali por aquelas bandas, parece que mais másculo que o BM não era fácil encontrar, daí a escolha do cantor e músico. O tipo tinha grande olho.
Bem, mas a verdade é que, depois de ter passado pelo sacrifício daqueles demorados e intermináveis rodopios nos braços do Alex, o cartel do BM junto das vamps subiu vertiginosamente. Até o sagaz alentejano de Odemira, Analídio Dimas, tirou partido da onda criada pelo seu chefe, agarrando-se, indiscriminadamente, a tudo o que por ali usasse saias. Feias ou bonitas, tanto lhe fazia. Ele, lá nisso, não era esquisito.
Foi o corolário de uma grande noite de borga e folia. Mas folia fina, já que não era qualquer mastronça que entrava naqueles saraus, daquelas noites de verão do "AlgarveSol". Era tudo gente selecionada, de primeira água. Nem os meus chefes se exporiam a outro qualquer cenário, que não fosse de etiqueta.


Extraído de: "DEGRAUS do 2º LANÇO".

sábado, 7 de setembro de 2013

JOSÉ CEITIL - de meu Recruta, a Comissário TAP e... Escritor



(Um jato T33, da BA2)






 
 Soube-o hoje, porque não morri ontem...
 Ando cá eu, andamos cá nós por tantos e infindáveis lugares e, caso não se vá desta para outra assim tão cedo,  chega-se à conclusão, por isto e mais aquilo, de que nunca chegamos a dominar completamente a cena. Muito se trabalhou (muitos), muito se estudou (poucos) e já alguma coisa se viveu (alguns), mas quando estamos prestes a entrar na reta final, vamos tendo a real noção de que "quanto mais viver, mais aprender". Se, por exemplo, eu me tivesse finado ontem, não tinha sabido nunca das vivências e predicados de alguém que, de repente,  para mim, deixou de ser simplesmente um meu ex-recruta, como bem escrevi no meu VOLUME II, para se tornar numa figura pública que, segundo soube hoje, através de entrevista na RTP2. Foi, precisamente, o que aconteceu com o rapaz de Vila Franca de Xira, José Ceitil de seu nome, que, depois de concluída a sua atividade profissional, como assistente de bordo da TAP, se dedicou à ingrata mas gratificante tarefa da escrita.
Não sou de preconceitos ou manias, mas não tenho por hábito ligar o televisor da cozinha na hora do almoço. É refeição, é refeição. Basta já as "secas" e arrelias que se sofre por ver/ouvir tanta desgraça naqueles malditos canais televisivos durante os tempos extra comezaina, quanto mais estar a expor-me aos perigos de engolir algum osso ou espinha, contrair um monte de náuseas ou, talvez ainda pior, sujeitar-me a sofrer uma valente indigestão. É que a impaciência para ouvir tanto charlatão e as suas abomináveis "charlatices" é tanta, que, parte das vezes, só me apetece atirar com a peça mais letal, que estiver mais à mão, à "tromba" daquele inocente televisor, que não tem culpa que, algumas mentes depravadas, o tenham inundado de imundices. Hoje, porém, mal tinha acabado de me sentar, e, nem por que sim nem por que não, deu-me na veneta de clicar o ON. Estava auto sintonizado na RTP2. Aqui decorria o programa "Mar de Letras", com o jornalista Mário Carneiro, que conduzia uma entrevista com o José Ceitil.
Como seria de esperar, não conheci logo o entrevistado. Para mim, era qualquer fulano, um rapaz p'raí da minha idade, que fora convidado para conceder aquela entrevista, que falava de escritores, livros e livreiros, ao canal 2 da RTP. É que, pese embora o aspeto capilar ser tão raso como o que conheci em 1965, eles apresentavam a sua (grande) diferença: é que o antigo era rés, mas abundante, ao passo que o atual era raso e raro. Mas, como falavam de literatura, estórias e histórias e edição de livros, comecei a prestar mais atenção ao tema. Foi quando ouvi, da boca do jornalista, e vi escrito na capa de um dos livros, o nome José Ceitil, que tive um lampejo de retrospetiva memorial, que me transportou para mui recuados tempos. Remeteram-me para a Base Aérea nº 2, da Ota, e para uma recruta que dei a um dos pelotões da 1ª Esquadrilha, onde, entre umas quatro dezenas de maçaricos, figurava o soldado-aluno (mais tarde Especialista), Zé Ceitil. Ele, com 18 anos, já jogava na 1ª categoria da U. D. Vilafranquense. Contudo, nem só de Ceitil se faz esta estória de tropa, já que o cartaxeiro Avelar Marques também me fora confiado como discípulo. A este, tive eu que ajudar, alombando, por muitas vezes, com a sua espingarda, quando a certa altura de um qualquer cross, o Avelar já nem podia com as botas, quanto mais com a espingarda...
Daquela recruta, se bem que em pelotões diferentes, também fizeram parte mais alguns rapazes do concelho do Cartaxo. Dos que me lembro, eram: o Domingos Jarego; O Carlos Marecos; o Veríssimo; o Ludgero; o Acácio, da Lapa; o Chico "Maluco", de Pontével, e o César, que, sendo de Lisboa, tinha raízes em Vale da Pinta.
Retornando aos livros, fiquei agora a saber que o Zé Ceitil já tem três ou quatro livros publicados, o que muito me apraz.
Parabéns, Zé Ceitil! E, o que mais te posso desejar, é que continues nessa senda.
Um abraço.

a) José Caria Luís

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Cena XII - Lisnave, 1969 - O Santos e o Turza



- Dois dos excêntricos –

Esta obra, da Doca Seca nº 10, nos Estaleiros Navais da Lisnave, na Margueira, teve como topógrafo, na sua fase inicial, o Bento Paulino, porém, devido à sua saída para a obra do Hangar 6 da TAP, no Aeroporto de Lisboa, entrou, em sua substituição, o Turza Ferreira. Este nem era mau diabo, mas quando lhe falavam de certas pessoas de quem ele não gostava , ia aos arames. Em certas ocasiões, tinha tais ataques de fúria que dir-se-ia que o homem corria sérios riscos de se passar deste para o outro mundo. E não era preciso grande provocação para o afinar; para isso, bastava, por exemplo, e a propósito de nada, falarem-lhe no nome do Miguel Temudo ou no do engº Cabrita. A sua tez ruborizava de tal jeito, que mais parecia que as bochechas poderiam rebentar a qualquer momento.

Eu conhecia-o da obra do Carregado, mas mal. Nunca tive qualquer ligação de serviço com ele, nem fazia a mínima ideia de quais eram as taras do tipo, mas agora, na Lisnave, com alguns meses de obra pela frente, é que eu iria saber quem era, afinal, o Turza Ferreira. E num dia de bastante sossego, em que o encarregado Silva não foi para o nosso escritório fazer sala ou discutir com o fiscal, tivemos a agradável visita do já conhecido controlador Feliciano Santos que, agora, trabalhava na nossa obra da Siderurgia Nacional, no Seixal. Não me lembro a que propósito ele terá ido à Margueira, mas, para o caso, isso também não é relevante.

Cumprimentos para cá, salamaleques para lá, e eis que entra na sala, vindo da obra, o nosso amigo Turza. Com a chegada do topógrafo, continuaram os abraços, mas desta vez com, apenas, dois protagonistas: o Santos e o Turza. O Feliciano Santos, sabendo dos fracos do colega, tratou de engendrar um esquema que visasse pô-lo em polvorosa. No entanto, para que a conversa parecesse séria e não desse aso a que o Turza desconfiasse da tramoia, o Santos falou comigo de modo a que o outro se sentisse à margem da conversa. E disse, mais ou menos isto:

— Ó Zé Luís, o Temudo está a organizar uma espécie de biblioteca de controlo de operações e precisa que você lhe arranje os dados desta obra: os que considere mais importantes.

 E, como se não bastasse, de modo a provocar o Turza, acrescentou:

— Aquele tipo, o Miguel Temudo, é um profissional com uma capacidade extraordinária. O gajo tem ideias fabulosas! – reforçou o Santos.

O Turza, que permaneceu algum tempo sentado ao estirador, ao ouvir os elogios e a franca apologia do seu inimigo figadal, deu dois saltos, empertigou-se, ficou vermelho e reagiu, assim:

— O quê? O que é que você está para aí a dizer? O Temudo é um génio? Esse gajo é a maior nódoa que alguma vez entrou nas Construções Técnicas! Um sabujo de um lambe-botas, é o que ele é!

O Santos, com a cena controlada, ainda iria espicaçar mais um pouco. E prosseguindo na senda de elogios ao seu chefe, frisou:

— Ó Turza, eu não sei que razões terá você para sentir tal animosidade contra o Temudo. Para mais, sendo eu amigo dos dois, custa-me vê-los assim, de costas voltadas, a digladiarem-se como ferozes inimigos. Vai ver que, um destes dias, ainda vos reúno aí numa almoçarada e obrigo-os a fazer as pazes.

Aqui é que o Santos estragou tudo, conforme pretendia. O seu amigo, ao ouvir tais barbaridades, dava pulos que nem macaco. O homem espumava pelos cantos da boca e, ao mesmo tempo que cerrava os punhos, respondia ao Santos, nestes termos:

— Pazes com esse gajo? Eu quero é vê-lo morto! Você ainda tem lata para gabar esse estafermo? Um génio? Ele, antes de vir para as Construções Técnicas, era empregado dos CTT, em Santarém. Sabe qual era a sua função? Era a de estar sentado à boca de um guiché, com a língua de fora, onde os clientes molhavam os selos que, depois, colavam nos envelopes.

O Feliciano Santos, longe de estar satisfeito com a cena, ainda atirou com mais esta, que sabia ir ferir, ainda mais, o seu interlocutor:

 — Mas olhe que o engº Cabrita gosta muito do Temudo!

Pior foi a reação do Turza Ferreira, que atirou:

 — O engº Cabrita? Esse é mesmo o chefe da pandilha! Não há nesta empresa, engraxador que não esteja debaixo das asas do engº Cabrita. – e sem se deter:

— Esses gajos formam uma roda, e só lá entram os bajuladores com provas dadas. Alguns bem tentam, como você! – insistiu o Turza.

— Eu? - questionou o Santos.

— Sim, você! Quem defende e elogia esses dois trastes, só pode estar aos repelões e a puxar saco, no sentido de arranjar um qualquer buraco que lhe dê entrada nessa sinistra roda.

E finaliza o Santos, com cinismo:

 — Eu não esperava que você me tivesse nessa conta!

 — Ah não? Se eles são os seus modelos, os seus favoritos, então você é tão bom como eles.

O Feliciano já tinha chegado onde queria, mas eu e o Sequeira, que não estávamos a par daquelas rábulas, disputas e rivalidades, ainda nos divertimos, se bem que de modo comedido, não fosse o homem desconfiar que havia por ali complô.

O Turza Ferreira, depois de tanto pular, espumar e, por duas vezes, ter atirado com o capacete ao chão, bateu com a porta e rumou à obra. Julgo eu que o terá feito com o fito de apanhar um pouco de ar fresco, já que, com aquela irritação, não teria condições para operar, com fiabilidade, uma simples fita métrica, quanto mais um taqueómetro...

Entretanto, o Santos, depois de semear aquela onda de mal-estar em casa dos outros, "desalvorava", de fininho, para a Siderurgia, sendo que eu e o Sequeira é que ficávamos com o ónus de ter que aturar a ira do Turza durante o resto do dia.
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Extrato de "DEGRAUS e MARCOS da VIDA", VOL.II

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Estes Políticos não são "rapazes maus"

Festas de Vale da Pinta - 2013
Políticos, mas muito bem comportados.

      Pelo que me foi dado ver nestas noites da Festa de Vale da Pinta, os políticos do concelho não estão tão distantes assim. Se o facto a que vou aludir, me fosse relatado por uma pessoa que eu considerasse bastante credível, talvez eu acreditasse (passe o pleonasmo), mas, ao invés, se esse fulano da boa-nova, fosse um normal cidadão, não sei bem se eu daria crédito a tal informação. Todavia, tal como, ainda hoje ou amanhã, vou escrever e desenvolver num dos meus blogues, o ato foi por mim presenciado, ali ao vivo e a cores. Portanto, se contado ninguém acreditaria, já o ser visto é coisa indesmentível da qual ninguém ousa duvidar. Por tudo isto, com toda a sinceridade, digo que gostei de ver os políticos da terra a comungar do mesmo espaço gastronómico, sem sofismas, sem ganâncias, sem azedumes, sem querelas, pois ali, o que eles queriam mesmo era dar ao dente.
     Poderão algumas pessoas, com mentes turbadas, eivadas de maus instintos, pensar que eu, cá no meu propósito, ao escrever este artigo, pretendo assumir o abominável papel de crítico mal-falante que, apenas, visa denegrir a imagem da classe política, mas tal não corresponde à verdade. Falando com toda a honestidade, posso assegurar-vos que, em ambiente de plena liberdade, desde que existe tal classe em Portugal, nunca antes tanto, com o porte da mesma, me congratulei.
     De facto, em, pelo menos, duas noites consecutivas, numa ampla tenda improvisada pela Comissão de Festas da terra, que, durante aquelas festividades, servira de restaurante aos utentes, pude assistir, embora a uma conveniente distância, ao repasto, em simultâneo e em bloco, dos membros das três principais forças que, em 29 de setembro, irão medir forças pela elegibilidade nos órgãos concelhios do Cartaxo. Como é bom de ver, as três fações não comungavam da mesma mesa, mas quase. Cada comitiva ocupava uma comprida ala de, talvez, uns vinte metros de mesa, sendo que estas se encontravam paralelas entre si e apertadas de tal modo que, no espaço entre as costas de uns e dos outros, nada mais sobrava do que a barriga dos voluntários servidores a roçar nas espaldas daqueles comensais de ocasião.
     Perante tal cenário, de uma coisa tenho a certeza: durante a comezaina nenhuma daquelas figuras representativas, quer dos dois partidos, PS (Pedro Ribeiro) e PSD (Vasco Cunha), como da candidatura independente, na figura de Paulo Varanda, se atreveu, em nenhum instante, a dizer mal ou contestar qualquer ação dos seus adversários políticos. E, ao dizer isto, não me refiro apenas ao delicado estado de alta concentração da espinhosa tarefa (muitos comeram bacalhau) de ter que manducar a bela posta, mas por obrigação, dentro das boas maneiras, ética e o decoro que, todos e cada um, têm que evidenciar, especialmente quando se sente o bafejar do adversário mesmo ali nas costas uns dos outros. 
     Eu, como atrás disse, sentado à distância de umas quatro mesas e, de igual modo, a manjar tal como os demais, não acompanhei em pormenor cada cena daquele raro evento, nem esse era o meu propósito, mas também não ouvi vozeirões, relatos relacionados com a análise, confronto e discussão aquando da apresentação da conta, ou das contas, melhor dizendo, já que ali era Vale da Pinta e não fazia qualquer sentido que as contas fossem feitas à "moda do Porto". Assim, sim: gostei do modo como as três comitivas se comportaram. É que, excetuando Vasco Cunha, no que concerne às andanças da Assembleia da República, todos são imberbes, por tal facto, não será de estranhar a lisura de processos e comportamentos que todos evidenciaram. E não foi para valedapintense ver... aquilo foi mesmo genuíno. 
     E, a terminar este afável artigo, não posso deixar de salientar a postura e o grau educacional de cada um dos candidatos à presidência da C.M. do Cartaxo: dois deles que, certamente, me conhecem através de foto ou de qualquer artigo que eu tenha postado no FB, fizeram questão de, embora à distância, me cumprimentar com uma vénia; o outro, que eu já antes conhecera, aquando do lançamento do meu livro no Salão Nobre da J.F. de Vale da Pinta (junho 2011), também me fez um cumprimento de ocasião.
  
     Não obstante não ser pessoa de salamaleques ou afins, não deixo de registar o sentido cívico demonstrado pelas pessoas que me cumprimentaram; não porque eles estejam a contar com o meu voto, porque eles, decerto, saberão que eu não residindo no concelho do Cartaxo, não lhes poderia dar o meu voto, já que a minha secção de voto é em Matosinhos.
    É verdade que não podem ganhar todos, mas, ao menos, um aceno de simpatia sempre ajuda, quanto mais não seja, moralmente falando. Que todos eles, à semelhança da postura evidenciada nestes simples eventos, tentem manter esse padrão no mandato que lhes vier a ser conferido, pese embora a dificuldade de tal feito. 
Boa sorte.

a) José Caria Luís

segunda-feira, 29 de julho de 2013

- A última vez que ouvi a fala do engº H. Leitão - (1988)

-A última, das 4 vezes, que o engº Henrique Leitão falou comigo-


      Na manhã do dia 10 de junho (creio que em 1988), ao ler o JN, deparei com uma notícia que elencava as personalidades que seriam medalhadas nesse dia pelo Presidente da República. Li então que a cerimónia ia ter lugar no Palácio dos Congressos de Braga e nela, além de outros, obviamente, ia participar o engº Henrique Leitão. Ele estava referenciado, como figura a homenagear, na área do Mérito Industrial. Ora, na altura, estando eu a trabalhar e a residir no Porto, portanto ali a dois passos da cidade dos Arcebispos, mal me ficaria se não metesse pés a caminho a caminho de Braga. À data estava eu na obra do Aeroporto Sá Carneiro e já não pertencia à empresa há cinco anos.

      É verdade que eu, durante os dezassete anos em que trabalhei nas Construções Técnicas, como tantos outros colaboradores cujas especialidades e funções eram desempenhadas em Obra, não tinha muitas hipóteses de chegar à fala com o fundador das Construções Técnicas, mas isso também não me obcecava, porque, além de sempre ter procurado medir as distâncias e de tentar manter os pés assentes no chão, não fui nunca do género de se pôr em bicos de pés para patrão ver. Mas tudo isto para dizer que, enquanto para as pessoas, cuja base de trabalho era a Sede, seria normal ver e ouvir o engº H.L. no dia a dia, para mim isso era coisa transcendente. Por tal facto, pela raridade, ainda hoje me lembro das quatro vezes que o patrão falou comigo.

     A primeira vez foi na Marina de Vilamoura (1972), aquando da sua visita à obra. Depois de me ter visto retirar o carro de debaixo do telheiro (por minha iniciativa), para dar lugar ao seu Mercedes, disse-me que gostava muito da cor daquele meu Fiat 128 grená; na segunda vez foi na obra da Cimpor em Alhandra, quando, no interior do escritório e através da janela, viu o tal Fiat 128, de cuja cor havia gostado dois anos antes. Disse-me ele que aquele pó do clínquer, de tão agressivo, me iria dar cabo da pintura do carro; da terceira vez que o engenheiro H. L. me dirigiu a palavra, foi em Marrocos. Tinha ele regressado do Brasil, onde esteve exilado. Foi uma autêntica festa aquela sua ida à obra da C.I.O.R, em Marrocos. Até a "Carga da Brigada Ligeira" marroquina atuou nesse significativo evento. Mas então, dizia eu que, nesta terceira vez, quando o engº H.L se deslocou mesmo ao cerne da obra e se encontrou comigo, ouvi assim da sua boca:
     - Estou feliz por vir encontrar aqui muito boa gente! Também já estive, lá em cima, no escritório, com o Rogério Feio e com o Pedroso.

     Pareceu-me um desabafo com alguma ponta de emoção.
     Agora vou concluir como comecei: com a cerimónia da sua condecoração com a Medalha de Mérito Industrial, naquele dia 10 de junho, em Braga.
     Assisti, calmamente, a parte do cerimonial, mas quando, a certa altura, ouvi a chamada e a apresentação do engº Henrique Leitão para ser agraciado pelo Presidente M. Soares, com  aquele galardão, senti um tal arrepio, que ainda hoje o sinto quando dele me lembro.

     Terminada que foi a cerimónia, dirigi-me ao parque de estacionamento e aí cumprimentei e conversei, por uns momentos, com o engº H.L. e seu filho João Pedro, sendo este o próprio condutor da viatura. Foi esta a quarta, e última vez, que ouvi a fala do grande timoneiro daquela GRANDE ESCOLA que foram as CONSTRUÇÕES TÉCNICAS.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Cena XI - Cerveja na Cimpor - Alhandra (1975)

- Cerveja? Nem com, nem sem... cartão -
            Nem só de sagas passadas com o Santos, o Damas e outros estupores da Comissão, se faziam momentos de descontração na obra da Cimpor, em Alhandra. Havia aqueles que gostavam de rir à custa dos outros e, para isso, inventavam as mais estapafúrdias estórias, como aquela dos cartões, espécie de salvo-conduto, que habilitavam a malta a beber cerveja a 50% do preço.
            Na obra não tínhamos bar. Quem quisesse matar a sede ou lubrificar a garganta empoeirada pelo pó do clínker, tinha de o fazer com água quente da torneira, a não ser que pegasse no corpo e fosse até à tasca mais próxima, dentro da vila de Alhandra. Mas aqui era perigoso porque, ou se era membro da Comissão, e então estava isento de quaisquer compromissos laborais, ou então corria sérios riscos de se candidatar ao saneamento, vendo o seu nome escarrapachado no Plenário.
            Aproveitando a onda, o que fizeram uns bacanos? Para atender às queixas e lamentos dos capatazes Arnaldo Russo e Armando Mota, que, amiúde, contestavam a lei seca instituída, deram-lhes a conhecer uma modalidade que estaria em vigor no bar da Cimpor e que, de uma forma usual, já era há muito utilizada pelos próprios operários da Fábrica. Para isso, incentivaram os interessados a dirigir-se ao escritório, à secção de Controlo e, aí, solicitariam ao José Maria Custódio, um cartão que os habilitasse a entrar no bar da Cimpor, onde, num ambiente de ar condicionado e contra o pagamento de, apenas, 50% do preço, poderiam beber cerveja à vontade. O cartão, esse, era fundamental: era assim como uma espécie de livre-trânsito. Mas atenção: nem toda a gente tinha direito a tal benesse; dentro de uma escala hierárquica, só capatazes e encarregados podiam usufruir desse bem. Era o que mais faltava, ver aquela amálgama de gente da obra – cerca de 500 fulanos - sem dote nem porte, a entrar por ali adentro, conspurcando pavimentos de mármore, tapetes de sisal e cadeiras de napa, com aquelas botifarras e calçorras todas cagadas de pó ou lama, conforme a meteorologia exterior. Por isso, no dizer dos informadores, só gente de outra categoria, com porte acima da média, podia aceder àquele espaço.
            O Custódio, já prevenido, arranjou-lhes dois cartões do ponto do pessoal e apondo-lhe um qualquer carimbo, fez a entrega aos interessados.
            Munidos dos respetivos salvo-condutos, lá foram os dois capatazes a caminho daquele lugar, que lhes tinha sido descrito como um oásis dentro daquele inferno, que era a Fábrica da Cimpor. Embora a distância fosse curta, o caminho era cheio de labirintos e, pelo intrincado percurso, foi preciso ir perguntando, a quem encontravam, onde ficava o tão ansiado bar que, segundo lhes tinham dito, além de ter ar condicionado, mesas, cadeiras forradas a napa, onde se podiam sentar um bocado e ter cerveja a metade do preço, também tinha, à entrada, para receber e dar as boas-vindas aos potenciais clientes, uma jovem rececionista morenaça e boa como o milho.
            Subida que estava a escadaria até ao primeiro andar, logo vislumbraram a tal brasa que, agora ali ao vivo e a cores – ela vestia de veludo vermelho e preto – ainda se lhes afigurava melhor do que aquilo que antes lhes fora dito.
            O Arnaldo, sendo o mais expedito, tomou a dianteira, acercou-se da beldade e, com isso, estabeleceu-se o seguinte diálogo:
— Boa tarde, menina! – cumprimentou o Arnaldo Russo.

— Boa tarde, senhores! – respondeu a rececionista.

— Quem são e o que pretendem os senhores? – indagou a menina.

— Somos empregados das Construções Técnicas e, como pode ver, temos aqui as nossas credenciais para ir ao bar beber cerveja. – disseram, em uníssono.

Estupefacta, a menina nem sabia se havia de rir se de chorar. E tentando controlar-se e manter a postura, questionou:

— Ir ao bar beber cerveja? Mas que cartões são estes e quem é que vos disse que podiam aqui entrar, ainda para mais, para beber cerveja?

O Armando Mota, de garganta sequiosa q.b., empertigou-se e justificou:

— Então, os cartões são das Construções Técnicas, e como somos ambos capatazes da empresa, deram-no-los, na Secção de Controlo, dizendo que os cartões serviam para esta nossa pretensão.

A jovem senhora, vendo que aquela farsada era um embuste que alguém da obra tinha pregado aos dois empoeirados e sequiosos capatazes, tratou de os informar de que o bar era exclusivo dos técnicos da Fábrica, por isso, com ou sem cartões, as pessoas estranhas à Cimpor não poderiam ter acesso àquele espaço.
Acabrunhados, descoroçoados e desiludidos os dois comparsas deram meia volta, desceram a escadaria e juraram vingança a quem, despudoradamente, os tinha metido naquela alhada. E nem o facto de terem regalado o olho à custa da beldade da receção, lhes serenou os ânimos.
Foi uma semana negra para estes dois ingénuos, que tiveram que ouvir, na obra e fora dela, todo o tipo de piadas e gozações.

Nestas coisas, no campo das inovações, na fase experimental, alguma coisa, ou alguém, tem que ser a cobaia! O Russo e o Mota, mesmo sem querer, foram os predestinadas para tal fim. E, para eles, ainda bem, porque, se assim não fosse, já hoje não eram aqui recordados, com saudade.
 
           Soube, mais tarde, que o capataz Zé Luís Pirralho, (um alentejano de Cabrela) que foi o promotor da farsa, teve a distinta colaboração do controlador Zé Maria Custódio, (um alentejano de S. Teotónio). Mesmo fora da época carnavalesca, o episódio teve larga repercussão, dentro e fora da obra.


Extraído de "DEGRAUS e MARCOS da VIDA", VOL.II

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Cena X - Em C.T. (1968) - O Manuel Rodrigues versus Peres -


- Quando Trabalhar Sentado era um Escândalo -
 

 Após a saída do encarregado geral Ribeiro de Azevedo desta autónoma Frente de Trabalho - Tomada de Água - e terminada que estava a Chaminé, foi o Sr. Manuel Rodrigues - encarregado de 1.ª - destacado para chefiar este setor, na margem direita do rio Tejo.
Este novo dirigente, no sentido de fazer vincar um certo tipo de conduta no que concernia ao relacionamento com os seus colaboradores e, com ela, fazer a diferença para o seu antecessor Ribeiro de Azevedo, gostava de mostrar que o seu dedo era a nova batuta que, a partir de agora, comandava as hostes na Tomada de Água. Tanto assim era, que  evidenciava essa sua atitude a cada passo. E para que não restassem dúvidas, sempre que pretendia vincar o seu apego e fidelidade à empresa, invocava-o deste modo:

— Eu sou Construções Técnicas, vivo das Construções Técnicas e para as Construções Técnicas!

O Manuel Rodrigues, para não desafinar muito com o (mau) clima reinante entre encarregados antigos e técnicos novos, impunha-se de modo agressivo e não dava tréguas ao desenhador que, por azar deste, tinha sido designado para, em obra, dar apoio técnico ao encarregado do ferro, nas complexas montagens das Armaduras nos elementos a betonar. O técnico desenhador era o Peres, um rapaz oriundo da zona de Castelo Branco, mas residente em Lisboa. Ora o moço, para desempenhar a sua missão, não podia estar o dia inteiro de pé, de projetos, bloco e caneta nas mãos, como se compreende; até porque os desenhos a consultar, em simultâneo, eram três, a somar às folhas de Pormenores de Varões. Então o Peres, sentado numa qualquer peça de madeira, desempenharia a sua função de modo muito mais eficaz, do que estar para ali a fazer uma espécie de penitência, só para agradar aos caprichos do encarregado. Mas o Rodrigues é que não aceitava aquele porte que, para ele, era uma afronta aos bons costumes e tradições das Construções Técnicas. Então, para que a sua linha doutrinária fosse seguida por todos os que o escutavam, argumentava assim:

— Eu sou Construções Técnicas, vivo das Construções Técnicas e para as Construções Técnicas! Por tudo isso, não posso permitir que você esteja a trabalhar sentado, dando um mau exemplo aos trabalhadores.

O Peres, cheio de paciência, respondia:

— O senhor não tem a mais pequena noção do trabalho que eu estou a fazer, pois não? Já viu a parafernália de desenhos e pormenores que tenho que consultar e ditar para o Gabriel? Como é que eu posso estar de pé durante todo o dia a fazer o meu trabalho?

O Manuel Rodrigues, a caminho do seu escritório, ia dizendo a quem com ele cruzava:

— Vocês vão ver como é que vou lixar o gajo! Vou fotografá-lo a trabalhar sentado e mando os retratos para a Sede, para o engenheiro Cabrita.

Parvoíce do encarregado. Então ele sabia que a sua entrada na Tomada de Água, tinha sido mal recebida pela maioria dos que já lá trabalhavam sob o comando do Ribeiro Azevedo, e vai dizer, em voz alta, o que pretendia fazer ao Peres? Como se compreende, houve logo um bufo que alertou o desenhador para a tramoia que lhe iria ser preparada.
Agora, era ver o Manuel Rodrigues com a máquina fotográfica escondida, atrás das costas, a deslocar-se, pé ante pé, pelas esquinas dos pilares, para ver se apanhava o Peres em flagrante. É claro que nunca o conseguiu. Porque este, já avisado, de cada vez que via o detetive entrar na zona na do raio de ação da Polaroid, levantava-se, disfarçava assobiando para o lado, como se não fosse nada com ele. Foi um jogo do gato e do rato que terminou com a vitória do Peres, devido à falta de subtileza e astúcia do Rodrigues.


Extrato de "DEGRAUS e MARCOS da VIDA", VOL. II

Obs. Para que as Memórias dos dois protagonistas desta "cena" , se conservem nos nossos pensamentos.