terça-feira, 3 de março de 2015

O "cromo" MARTELEIRA (2)


O estagiário engº Marteleira, "cromo" como era, não nos podia abandonar sem deixar ainda mais vincada a sua passagem pela VI Linha Fabril da Cimpor, em Alhandra. O principal autor (e ator) das mais variadas sagas, ainda tinha muito para dar, como se pode comprovar na crónica que se segue. Este episódio, que também tem algo de excêntrico, só podia mesmo ser protagonizado pelo nosso engº Marteleira.
O principal ator de outras sagas, não nos quis deixar sem participar nesta - mais uma - a juntar ao seu vasto currículo.
Precisando que mudassem o óleo do seu NSU, meteu uma cunha, no sentido de que a operação fosse efetuada na oficina mecânica da obra. Ora, como ele era da empresa e, além do mais, era um tipo porreiraço, que até fazia questão de afirmar que não gostava dos comunistas, foi-lhe dada essa abébia, e a mudança de óleo foi mesmo efetuada na oficina. Porque estávamos na tarde de sexta-feira e aproximava-se o fim-de-semana de Carnaval, pediu para que o não deixassem enrascado, já que tinha assumido compromissos na terra, aos quais não podia faltar. E assim foi: o mecânico Nogueira assumiu o comando da operação e, passados que foram uns vinte minutos, ficou o engº Marteleira a saber que podia, a qualquer momento, sacar a sua bela máquina e, nela, seguir caminho até, pensava ele, à vila da Lourinhã. Agradeceu os préstimos do staff da mecânica, sorridente, esfregou as mãos de contentamento, despediu-se com abraços, e seguiu, fábrica adentro, procurando os trilhos que o haviam de conduzir à sua adorada Lourinhã. 
Porém, mal saiu da localidade de Alhandra, e por ter dado mais um pouco de gás à viatura, notou um barulho esquisito, que lhe pareceu ser proveniente da roda dianteira, do lado direito. De tanto escutar, distraiu-se e deixou que aquele rodado saísse do asfalto e tivesse afundado no mole terreno da berma. Como viu o afundanço pender para aquele ponto, foi levado a pensar que lhe tinha saltado fora a roda daquele lado; do lado de onde provinham os tais barulhos. Assustado q.b., saiu do carro num salto, e correu cerca de cem metros para trás, tentando, por aí, achar a roda que, para ele, tinha ficado pela estrada ou caído na valeta. Naquele momento de frenética pesquisa, aproximou-se uma motoreta, a cujo condutor o Marteleira fez sinal para parar. À pergunta, "se tinha visto por aí uma roda", o outro respondeu com um não. Mas o motociclista, colaborando, não prosseguiu na sua viagem. Antes acompanhou o Marteleira na pesquisa da misteriosa roda que, para o seu dono, por artes do Demo, se tinha esfumado.  Valeta abaixo, valeta acima, um do lado esquerdo e o outro do lado direito, passaram tudo a pente fino, mas debalde. O diabo da roda não aparecia nem por nada. Já descoroçoados, aproximaram-se ambos do NSU do engenheiro, deram a volta ao carro e descobriram que a tal roda que procuravam, estava sossegada e inerte no seu devido lugar. Estava atafulhada de lama, mas estava lá.
Já mais calmo, pegou na viatura, fê-la girar 180º, e voltou à oficina da obra, onde relatou o percalço ao mecânico Nogueira. Este, que meia hora antes, tinha colocado umas pedrinhas, tipo gravilha, no interior do tampão, deixou-o sair para dar tempo de proceder à retirada das pedras. Depois, chamou-o para lhe fazer a entrega do NSU, agora em perfeitas condições, sem barulhos.
 Para que conste, o engenheiro foi o primeiro a contar a saga da roda que se julgava perdida, algures, numa valeta da berma da estrada da Arruda, e o mecânico Nogueira ficou a saber, que aquela partida de Carnaval poderia levar algum erudito a transportar o cómico episódio para o cinema. Estivéssemos nós em Hollywood…


Por coincidência, o motociclista que ajudou na investigação do "mistério da roda sumida", era carpinteiro na mesma Obra onde estagiava o engº Marteleira. Ele não conhecia o estagiário, mas, dois dias depois, quando o viu no estaleiro, meteu conversa com ele e ficou a saber que o distraído condutor do NSU era engenheiro e lourinhanense. Quando, nos meios rurais, se dizia que: “Ó pá, tu pensas que eu sou da Lourinhã?” estariam a relacionar a frase com o nosso amigo Marteleira? Eu digo que não, porque o Marteleira não era assim tão velho. Ele era um estagiário de uns vinte e poucos anos, mas que era um grande "cromo", lá isso era. 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

LUSÍADAS - Séc. XXI

Os Lusíadas do Século XXI
Deliciem-se com o poema deste novo Camões, do "Luís vais sem tostões!"... 
de que eu  não sou autor... 



  
 "Canalhíadas" 
                      I
As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo o que lhes dá na real gana
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se do quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram!

                     II
E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!

                    III
Falem da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem à solta só me espanta..

                     IV
E vós, ninfas do Coura onde eu nado
Por quem sempre senti carinho ardente
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene!


     de:
 Luís Vais Sem Tostões

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

CASTANHA-DO-BRASIL




10.1.09


CASTANHA-DO-BRASIL (CASTANHA-DO-PARÁ)

(Bertholletia excelsa)
Só uma castanha por dia... não mais do que isso, garante as doses de selênio de que seu corpo precisa para preservar cada célula, por para fora possíveis substâncias tóxicas e viver mais.
Cabe na palma da sua mão, e ainda sobra um espaço e tanto, a arma que vai superproteger as unidades microscópicas do seu organismo. Em segundos, ao mastigar uma única castanha-do- pará, você recarregará os níveis de um mineral extremamente importante para uma vida longa e saudável: o selênio. A pequena oleaginosa repõe a quantidade do nutriente necessária para dar combate ao envelhecimento celular, causado pela formação natural daquelas incansáveis moléculas que danificam as células, os radicais livres.
Um estudo da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, atesta que a ingestão diária de duas castanhas-do-pará recentemente rebatizadas castanhas do brasil, eleva em 65% o teor de selênio no sangue, mas provavelmente os neozelandeses não usaram o legítimo produto brasileiro. Ora, nós somos sortudos. É que as castanhas produzidas no Norte e no Nordeste do país são tão ricas em selênio que bastaria uma unidade para tirar o mesmo proveito. A recomendação é de que um adulto consuma, no mínimo, 55 microgramas por dia, diz a nutricionista Bárbara Rita Cardoso, pesquisadora do Laboratório de Minerais da Universidade de São Paulo. E com uma unidade da nossa castanha já é possível encontrar bem mais do que isso de 200 a 400 microgramas do bendito selênio. Aliás, o limite de consumo diário do mineral é de 400 microgramas, portanto, não vá com muita fome ao pote. No caso de uma criança, meia castanha seria suficiente, afirma Silvia Cozzolino, presidente da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição.
E por que toda essa fama do selênio? Ele é essencial para acionar enzimas que combatem os radicais livres, responde Christine Thomson, a pesquisadora neozelandesa que investigou as propriedades da castanha. O selênio se liga a algumas proteínas já existentes em nosso corpo para formar essas enzimas antioxidantes, descreve, completando, Bárbara Cardoso. Na ausência dele, as tais enzimas ficam sem atividade e, então, deixam de combater os radicais e ainda desguarnecem as defesas do organismo.
O mineral da castanha também teria um papel especial na proteção do cérebro. É que, com essa capacidade de acabar com a farra dos radicais livres, as células nervosas seriam preservadas, evitando o surgimento de doenças neurodegenerativas com a idade. Justamente por isso, a pesquisadora Bárbara Rita Cardoso começa a estudar os possíveis benefícios do selênio em portadores do mal de Alzheimer. "Desconfiamos que nesses pacientes os radicais façam maiores estragos", diz ela.
A tireóide também funciona melhor na presença do selênio, acrescenta Christine Thomson. Isso porque, se não houver esse elemento, ela não consegue produzir direito seus célebres hormônios. O mineral também está intimamente associado à capacidade de o organismo se livrar de substâncias tóxicas, ajudando-o inclusive a expulsar possíveis metais pesados que se alojam nas células.
Apesar de tudo isso, o badalado selênio deve ser apreciado com moderação. Quando os especialistas recomendam uma castanha diária, é para segui-lo à risca. Acredite: o conselho não é nem um pouco mesquinho. Esse consumo ideal e comedido é que faz todas essas enzimas que dependem do nutriente trabalharem de forma adequada, diz Bárbara. Em excesso, o selênio não vai potencializar sua ação. E o pior: mais cedo ou mais tarde, o exagero rotineiro vai revelar o lado negro da substância. Sim, ele existe: a toxicidade. Ela acontece se a pessoa ingerir mais de 800 microgramas por dia, adverte Silvia Cozzolino. É que o selênio tem efeito cumulativo, emenda Christine Thomson.
Isso não significa que abusar das deliciosas castanhas em uma happy hour com amigos traga grandes ameaças. De vez em quando, dá até para superar a quantidade recomendada. O perigo é comer essas oleaginosas além da conta todo dia. Quem experimentar ataques sucessivos de gula poderá sentir dor de cabeça, ficar com as unhas fracas e ver seus cabelos caírem. "Mas quem come mais de 6 castanhas hoje não vai se empanturrar delas amanhã", usa a lógica a expert em nutrição Silvia Cozzolino. No máximo, o preço desse pecado será um mau hálito parecido com o bafo de alho, acredite!
Não corre o mesmo risco quem comer, vez ou outra, algum prato que leve a castanha na receita até porque, seja doce ou salgado, dificilmente uma porção reunirá tantas unidades. E saiba: nem o fogão nem a geladeira conseguem detonar as reservas de selênio. No dia-a-dia, nada melhor do que a praticidade de botar na mochila, no bolso ou na bolsa a sua estrela solitária. É saúde na medida certa!
Para chegar à quantidade de selênio de uma castanha-do- pará (de 5 gramas ), você teria que consumir, em média, o equivalente a...
  • 16 pães franceses ( 50 gramas cada um)
  • 100 copos de leite (200 mililitros por copo)
COMIDA ANTITÓXICA
Uma das principais benesses do selênio é a sua capacidade de desintoxicar o organismo. O mineral atua em mecanismos que favorecem a eliminação de metais pesados pelas fezes e pela urina, explica a nutricionista Bárbara Rita Cardoso. Esses metais nocivos, como o mercúrio e o arsênico, ficam impregnados no organismo quando, por exemplo, consumimos peixes de má procedência, que vieram de águas poluídas. E, daí, disparam inúmeros problemas em nossos tecidos, do envelhecimento ao câncer, algo que é freado com o sistema de limpeza acionado pelo consumo da castanha.

SUPLEMENTAÇÃO, A POLÊMICA
A natureza oferece fontes de selênio, mas há quem prefira recorrer às cápsulas. Estudos recentes revelam que isso pode ser bobagem: o melhor seria buscar o mineral na comida mesmo. O selênio dos alimentos é mais bem absorvido pelo organismo, justifica o pesquisador Alexei Lobanov, do Departamento de Bioquímica da Universidade Nebraska-Lincoln, nos Estados Unidos. E, já que a quantidade de que precisamos nem é lá tão alta, a suplementação deveria ficar restrita a casos especiais.
TERRA BOA, FRUTO RICO
A concentração de selênio em um alimento depende do solo em que é cultivado. De acordo com o engenheiro agrônomo José Urano de Carvalho, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a castanheira, nativa da floresta Amazônica brasileira, além de ter uma incrível habilidade para extrair o mineral, comparada a outras espécies, encontra na terra de lá uma enorme quantidade de selênio. Por isso seus frutos são campeões no elemento. As castanhas-do- pará são cultivadas prá valer na região Norte, especialmente no cinturão amazônico, mas o Brasil já não lidera o ranking de produção da oleaginosa. "Hoje é a Bolívia que ocupa o primeiro lugar", revela Urano.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

31 de DEZEMBRO de 1980 - Uma MÁ DATA.

Na CIMPOR - Souselas

Pois faz hoje 35 anos, que este vosso amigo ia indo deste para o outro Mundo.

Nesse dia 31 de Dezembro de 1980, uma Quarta-Feira, o Rogério Feio, o Cosme, o José  Brincano, o A. Cartaxo, o Pedroso e eu próprio fomos, nesse dia, almoçar a Coimbra, ali para os lados da Baixa.

Após o repasto, e como era o dia de fim de ano, houve quem se lembrasse de levar uma "prenda" para a família. Qualquer que fosse, seria decerto bem recebida em casa de cada um. Por isso, fomos ao Joaquim dos Leitões, ali por detrás da Av. Fernão de Magalhães, onde cada qual se apetrechou com uns nacos de bácoro, de pele crocante, que até fazia salivar.
Pouco depois do nosso regresso à Cimpor, fomos informados pelo diretor da Obra, engº Capinha, e pelo diretor de Produção, Rogério Feio, de que, devido à data, a hora para sair seria às 14h30.
Agora, havia que materializar esse esquema com a fiscalização da Cimpor, para isso, desloquei-me aos seus escritórios. Acompanhado do engº fiscal Abel Machado e do fiscal Rolando Rodrigues, ambos da Cimpor, encetámos um périplo pelas diversas zonas do empreendimento, a fim de avisar todas as chefias, tanto das Construções Técnicas, como as da própria Cimpor, que operavam em zonas contíguas às nossas. Mas a ronda foi curta. Não teriam passado mais de 5 minutos, quando, ao sair do Edifício de Dosagem, apanhei com uma viga de madeira, de 16x8, que já vinha em queda uniformemente acelerada, primeiro no capacete e, depois, na cabeça. Esta peça ter-se-ia desprendido de uma lingada de uma grua-torre, desde uma altura de 60 m, tendo sido eu o "premiado" de fim de ano.
Nunca dei por nada, não senti nada. Sei, pelo que me contaram uns dias depois, que todo eu era um charco de sangue, jorrado da extensa fissura aberta no crânio. 
Não me lembro de ter entrado nem de ter saído dos Hospitais da Universidade de Coimbra, porque, ainda inconsciente, trataram de me pôr ao fresco, possivelmente para dar lugar a outro.
Por solidariedade, ficaram em Coimbra, o Rogério Feio e o engº Capinha. O Rogério, até pediu à sua esposa que viajasse para a Lusa-Atenas e, assim, já não passou o fim de ano só.
Também a Luísa, depois de deixar os meus dois filhos em Vale da Pinta, viajou, de comboio, para Coimbra.
Depois, foram 2 meses de uma semi-recuperação. Isto porque, a pedido do engº Capinha, pedi alta no Hospital de "A Mundial", em Lisboa e segui para Souselas. Nas poucas vezes que ia à obra, em cada passo que dava, só sentia uma espécie de facadas na coluna. É que, além do crânio, também sofri lesões na coluna e nalgumas vértebras. Ao cabo de 6 meses, já estava 100% operacional e capaz de outra.
Por agora, acabaram-se os lamentos. P'ró ano, para quem cá estiver, há mais. 

Uma Boa Passagem e um Bom 2016.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Os meus 1ºs de Dezembro - Vale da Pinta



Os 1ºs de Dezembro. Como eu os via.

Em tempos que já lá vão, pelos anos 50 do século passado, já o Gregoriano assinalava o dia 1 de Dezembro. O nosso 1º de Dezembro, em terras de Vale da Pinta, caraterizava-se de modo muito simples, mas muito significativo. Pela madrugada reunia-se a Banda de Música que, de modo célere, percorria as principais ruas da terra. Era em marcha apressada que o fazia, porque, na época, o dia não era feriado, e os músicos (quase todos trabalhadores rurais) tinham o compromisso de iniciar a sua jornada laboral ao nascer do sol. O horário, que alguém estipulara para a faina rural, era de sol-a-sol. Mesmo nos dias em que em que o astro rei não se deixava ver, a duração do tempo de trabalho afinava sempre por esse diapasão. 
Ainda hoje a iluminação pública em Vale da Pinta não será famosa, mas, naquela altura, ainda com pouca "rodagem", pouco mais watts debitava que a fidelíssima candeia de azeite, de torcida, que ainda alimentava muitas casas da terra. Ora, atendendo a que esta condição era um óbice para que a Banda tivesse um desempenho aceitável, havia que tentar melhorar as condições e, para tal, melhor remédio não havia do que recorrer a uma meia dúzia de voluntários que, marchando por entre as filas dos músicos, e de Petromax à cabeça, tropeçando aqui e ali, lá iam dando luz àquelas sombrias pautas. Não era que o trecho fosse desconhecido dos intérpretes; muitos deles até sabiam aquilo de cor e salteado, mas com os candeeiros de camisa e petróleo sempre a coisa ficava mais facilitada. 
A certa altura da marcha, quando alguém se apercebia que havia por perto uma porta que se abria, e dela saía uma alma caridosa que se propunha doar uns figuitos passados, umas broas de milho e uns cálices de aguardente, passava a palavra ao músico Silvestre Caipira, que, na figura de maestro interino, dava ordem de paragem ao cortejo e, em simultâneo, o início da beberrice. Isto, como está bom de ver, tanto para os músicos como para os acompanhantes. Muitos destes, sabendo que, numa ou noutra casa, havia figos e bagaceira de borla, à descrição, trocavam o "vale de lençóis" pela friagem agreste da madrugada invernosa, só para satisfazerem as suas gulas alcoólicas. Que me lembre, ninguém rejeitava carga. E se, àquela hora da madrugada, estava iminente o ritual diário do "matar o bicho"... de graça, melhor seria.
Mas era assim que, durante algumas décadas, se comemorava o 1º de Dezembro na minha terra.


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O MAR VAI SUBINDO

O MAR ESTÁ A SUBIR para níveis já antes atingidos.
É lamentável o que vou escrever, mas, infelizmente para muitos, a começar pelo extenso rol de amigos que tenho na Outra Banda, é a dura realidade. 
Não sou eu que o digo, até porque, para o universo científico, o "fenómeno" está mais que provado.
Há precisamente 42 anos, estava eu na execução da Obra da Marina de Vilamoura, pelas Construções Técnicas, quando, devido a um problema de "levantamentos de fundos" e jatos artesianos, foi solicitada a presença na Obra do nosso geólogo dr. Ricardo Marques, a fim de emitir um parecer técnico sobre o que considerávamos uma grande anomalia. Este técnico, num momento de pausa, a meio da sua intervenção, olhando a Leste para os montes que formam a Serra do Caldeirão, disse-nos: - "Pois é, meus senhores, o mar está no movimento ascendente. Ele (mar), para desespero da humanidade, ainda vai ocupar os níveis de outrora. O processo irá levar muito milénios? Claro que sim. Mas é real. - sem se deter - Há dois meses, participei num estudo, em trabalhos de sondagens na encosta daquela serra; sabem o que de lá saiu, das suas entranhas, ao longo de alguns quilómetros? Foram fósseis! Fósseis, de tudo o que tem a ver com bivalves e outra espécies marinhas."
Na ocasião, nenhum de nós (éramos 5) ficou incrédulo. Até porque era o testemunho de um especialista com créditos firmados, mas hoje, diante de acontecimentos como os da notícia, só nos podemos resignar. Resignar e dar conhecimento às gerações vindouras do que terão que fazer, que é instalarem-se, aos poucos, durante alguns milhares de anos, em zonas de cota altimétrica mais elevada.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Por que nos tratamos por Dr. ou Eng.º? - dn - DN

Por que nos tratamos por Dr. ou Eng.º? - dn 

Uma das características mais visíveis da cultura portuguesa - e certamente da cultura de gestão portuguesa - é a propensão para o uso de títulos académicos. O uso de títulos (Dr., Eng.º.) é certamente mais praticado em algumas organizações do que noutras, mas, na comparação com outros países da União Europeia (UE), os portugueses são pródigos no uso de títulos. É aliás frequente, nas situações em que se conhece menos bem o interlocutor, colocar um cauteloso Dr. antes do nome. Na dúvida, antes a mais que a menos.

Esta propensão nacional para a utilização dos títulos pode naturalmente ter diversas explicações, mas uma das mais plausíveis pode ser encontrada no monumental trabalho de campo desenvolvido por um sociólogo holandês, Geert Hofstede. O seu livro Culture's Consequences, originalmente publicado em 1980, é uma obra de referência dos estudos de gestão transculturais. Neste trabalho, Hofstede tomou a cultura como variável independente ("causadora" de outras variáveis) e procurou analisar as suas implicações para o funcionamento da sociedade e das organizações. O trabalho deste ex-director da IBM sugeriu que as diversas culturas nacionais podem ser caracterizadas de acordo com um conjunto de quatro dimensões individualismo/colectivismo, evitamento da incerteza, masculinidade/feminilidade e distância hierárquica. Destas dimensões, a última, distância hierárquica, é particularmente relevante para a resposta à questão que aqui se discute.
A distância hierárquica reflecte o grau de deferência que os indivíduos projectam sobre os seus superiores hierárquicos, assim como a necessidade de manter e respeitar um certo afastamento (social) entre um líder e os seus subordinados. Nos países e regiões de elevada distância (e. g., Portugal, Espanha, América Latina, Ásia e África), superiores e subordinados consideram-se desiguais por natureza. A distância emocional entre chefias e subordinados é elevada. Detecta-se uma grande reverência pelas figuras de autoridade, e atribui-se grande importância aos títulos e ao status. Ao contrário, em países com baixa distância hierárquica (e. g., EUA, Grã-Bretanha e países não latinos da Europa), a dependência dos subordinados relativamente aos chefes é limitada. Os primeiros não sentem desconforto considerável por contradizer os segundos. Uns e outros consideram-se iguais por natureza.
Nos países com distância hierárquica tendencialmente mais elevada, o uso de símbolos de status representa portanto uma forma de explicitar e de assinalar o reconhecimento das distâncias entre pessoas pertencentes a diferentes escalões sociais ou organizacionais. A distância tende a aumentar a dificuldade de comunicação franca entre líder e equipa. Por exemplo, observava recentemente um gestor do Norte da Europa expatriado em Portugal que, quando perguntava aos elementos da sua equipa se estavam de acordo com ele, a resposta era sempre afirmativa. Surpreendido com tão consistente e persistente acordo retomou a discussão perguntando se estavam mesmo de acordo ou se estavam a procurar ser obedientes. A resposta é fácil de adivinhar. C
Para desenvolver o assunto- DN