terça-feira, 29 de abril de 2014

Cena XX - nas C.T. - Marrocos (1977) - Al-Hoceima

the pearl of the mediterranean - Al Hoceima, Al HoceimaUm Sábado em Al-Hoceima                      Para estrear, a sério, a bomba e o chauffeur, nada melhor que fazer uma viagem mais longa do que ir e vir de Oujda. Noventa quilómetros nem davam para aquecer o motor. Ir à zona balnear de Saidia, segundo o Santos, também não seria a viagem ideal. Pese embora já serem para aí uns cem quilómetros para cada lado, as estradas eram demasiado planas e horizontais para pôr a viatura à prova. Pensando melhor, porque não ir até Al- Hoceima? Seria o ideal. O traçado rodoviário era muito variado: ora segmentos de reta, ora curvas e contracurvas; uns planos horizontais e outros inclinados, enfim, era esta variedade de condições que iria garantir um perfeito teste à máquina do Sete Línguas. Eram duzentos e cinquenta quilómetros para cada lado, mas que se lixasse! Ainda por cima, a gasolina em Marrocos era ao preço da uva mijona, porque não avançar para aquela cidade do Mediterrâneo, em plena zona dos berberes[1]?
         Este povo falava a sua própria língua, a berbere que, por estranho que pareça, era também falada pelos distantes tuaregues. Sendo minoritária, nunca se chegou a impor e até nunca foi tida como escrita. Aqui nesta zona do Rif, a língua castelhana era a mais utilizada.
O esquema traçado para a viagem visava um caminho menos acidentado para a ida e, no regresso, embora com algum sacrifício pela travessia das montanhas do Rif, fariam uma paragem na Barragem Mohamed V que, dizia quem conhecia, era um espanto. Como nunca antes tinham ido para aqueles lados, nunca se sabia o que se poderia encontrar; além do mais, o modo como o carro se comportaria era uma incógnita. Mas eles iam partir cedo, às 6h00, como combinado. O percurso, segundo os informaram, demoraria umas quatro horas para cada lado e eles queriam evitar viajar de noite. Assim, o Santos pegou na bomba e saiu do estaleiro às 06h00. Entrou na Nacional 6, virando à esquerda e seguiu para El Aioun, onde ia recolher o "patrão" Sete Línguas.
Resumindo, em traços gerais, soubemos que, a partir de El Aioun, continuaram pela N6 e, 20 km mais à frente, deixaram esta via e entraram numa estrada secundária que os levaria até à povoação de Mechra Hommadi. Seguiram em frente, com passagem por Hassi-Berkane, onde entraram na N19. Passaram por Douiria, Mont Arruit, já na N2, – onde pararam para comer alguma coisa – seguiram por Driouch, Boufarkouche, Talamagait, Imzouren e chegada a Al Hoceima, por volta das 11h00.
Ali chegados, deixaram o carro. No firme propósito de desentorpecerem as pernas, caminharam pelas zonas mais antigas da cidade, a fim de apreciarem aquelas ruas estreitas e casas branquinhas que, dispostas em anfiteatro, transmitiam uma onda poética a quem teve a felicidade de as conhecer.
De tanto andar de carro e depois de palmilharem cerca de uma hora e meia ruelas adentro, as dores nos pés e a fome começaram a tomar conta deles. Para remediar esta segunda pecha, era fácil, pois não faltava ali onde comer, mas remédio para a primeira já era mais difícil. Eles precisavam de descanso, descanso sentado e, se arranjassem por ali perto onde dar ao dente, aproveitavam a embalagem e sentavam-se um bocado, para aliviar o que estava dentro dos calcantes[2]. E foi numa churrasqueira que abancaram, para saborear o belo frango na brasa, acompanhado com cerveja marroquina servida por debaixo da mesa.
Terminado o repasto, acharam que faziam bem em dar uma voltita pela zona mais moderna da cidade, talvez para estabelecer uma comparação entre a nova e a velha. E assim foi. Ao virar de uma esquina, o Sete Línguas parou e deteve-se em frente a uma montra, de onde ressaltava um sapato que lhe estava mesmo a cair no goto. Mas, entretanto, através da montra, reparou que no interior da loja estavam duas meninas de bata azul, que, depreendeu, seriam empregadas. O Santos, que ia ligeiramente adiantado, virou-se para trás e gritou para o "patrão"[3]:
— Então, Silveira, vamos embora, que se faz tarde!
— Ó Santos, chega lá aqui! Tenho os sapatos todos descambados e gostava de comprar aqueles, os castanhos, mas tenho as meias rotas!...
O Santos, armado em macaco, sossegou o Silveira:
— Mas, ó Silveira, isso não constitui problema! Eu sei falar um bocado de espanhol e, enquanto você experimenta os sapatos, eu entretenho as gajas! Entre lá!
O nosso amigo Sete Línguas, cheio de boa fé e confiança no Santos, entrou. Depois de cumprimentar as meninas, apontou para aqueles sapatos que lhe tinham causado tão boa impressão. Dizendo que calçava o 42, pediu para experimentar uns. Uma delas abriu um gavetão e de lá tirou um par de sapatos, que pôs à disposição do Silveira. Este retardou a operação da experimentação, esperando que o Santos entabulasse conversa com as meninas, o que aconteceu. Sentindo o caminho livre, descalçou os velhos sapatos e, meio desconfiado, enfiou os pés nos novos. Estavam apertados. Nisto, diz o Santos:
— Então chefe! É hoje ou amanhã?
O homem, sentindo os pés apertados, ainda tentou que o amigo (?) voltasse a entreter as meninas, mas isso não foi possível porque o Santos já tinha esgotado os seus argumentos em espanhol, e as meninas estavam ambas concentradas no apoio a dar ao cliente.
Finda a operação, enquanto o Silveira puxava pela carteira, uma das meninas pegou nos sapatos velhos e fez menção de os colocar no caixote do lixo. A um aceno de cabeça do Santos, a confirmar o gesto da menina, esta não foi de modas, e os descambados sapatos foram mesmo para reciclagem, coisa a que, na altura, o Silveira não se opôs.
Eram três da tarde, e não havendo mais nada que os retivesse por ali, foi tempo de pegar na bomba e zarpar de regresso a El Aioun.
Conforme planeado, o itinerário do regresso seria diferente do da ida, sendo que, desta vez, passariam pela Barragem Mohamed V. E lá foram eles estrada fora, pela N19, de modo a chegarem àquele complexo hídroelétrico ainda com a luz do dia. Em condições normais, sempre seriam umas três horas de caminho. Mas isso seria em condições normais, porque em situação anormal, ninguém pode ter a veleidade de o saber.
Após três horas de viagem, pela quilometragem feita eles sabiam que a Barragem já não estaria longe, mas o Belzebu do Rif[4], que estaria por perto, à espreita do exato momento para atacar, resolveu acabar com a boa disposição do duo, avariando-lhes a instalação elétrica da iluminação do carro.
O motorista de ocasião, saiu do carro, abriu o capot, acendeu o isqueiro e vasculhou visualmente aquela panóplia de cabos e fios entroncados uns nos outros, tendo concluido que o busilus devia estar na parte elétrica, na vertente da iluminação, já que o motor trabalhava. Mas o Santos a ver aqueles fios todos, era como um boi a olhar para um palácio. Coçou a cabeça, deu um pontapé num pneu e, com um desabafo próprio das gentes do Norte, gritou para o Sete Línguas:
— Ó Silveira! Estamos quilhados, carago! Esta merda não dá nada! E agora? Nem uma merda de um mapa para ver onde estamos!
O Silveira era o patrão, mas, numa situação daquelas, ele não mandava nada. Se ele era apenas especialista em Línguas e em Botânica – e agora, na obra, a atar ferro - que obrigação tinha ele de perceber de eletromecânica? O Santos é que tinha a responsabilidade moral e material de levar a bomba a bom porto. Não era só gozar a condução daquela bela máquina, passear, comer e beber à conta do orçamento do Silveira… o que era isso?
E com uma grande lata, pergunta ao outro, “E agora?”
            Mas o Silveira, com os olhos esbugalhados e uma lágrima ao canto de um deles, fruto da emoção do momento, também não foi mais expedito que o Santos, já que respondeu na mesma moeda, isto é, com um sonoro “E agora?” Mas essa era uma pergunta que o chauffeur já tinha feito. Numa situação embaraçosa como aquela, a prenunciar noite escura, abandonados pelos deuses numa curva da estrada, num ermo em plenas faldas das montanhas do Rif, possivelmente infestadas por 40 ladrões da seita do Ali-Babá, o que se pedia, e era premente, era lucidez, cabeça fria e umas pitadas de valentia. Mas, por enquanto, eram só lamentos e ais. Depois, sem solução à vista, sentaram-se nos bancos da viatura, esperando que alguma alma milagrosa, a viajar de carro, passasse por ali e lhes desse uma ajuda. Mas qual quê! Até agora – e já decorrera mais de meia hora – o que por ali tinha passado eram corvos e mochos que, com o seu sinistro piar, mais agudizavam o medo que ambos sentiam. Se ainda, ao menos, estivesse luar... mas esse desiderato não lhes foi concedido, já que essas historietas de: “ Y la luna parece un turbante de plata perdido de Alá”, era só na canção de Los Tamara, que não passava de teoria barata para enganar os românticos. A não ser que essa mesma luna, naquela noite, só aparecesse a quem estivesse no deserto do Sahara. Ainda assim, não sendo crentes no Alcorão, decerto não esperariam uma bênção de Alá, só porque estavam em apuros.
            A noite avançava, e para quem fazia tanta questão de visitar a famosa Barragem Mohamed V, a visibilidade já era. O Silveira lamentava-se. Lamentava-se, não apenas pela sua bomba, mas porque os seus pés, envoltos numas coisas de cabedal, a que chamavam sapatos, mas que para ele eram duas autênticas prensas, já estavam a chegar ao limite do sofrimento.
Cansados, descoroçoados, e quando preparavam a mente para dormitarem cada qual por seu banco, eis que aparece um raio de luz ao fundo da curva. Não havia dúvida: eram os faróis de um carro. O Santos, mais destemido que o Sete Línguas, deu um salto para o meio da via e com os antebraços na horizontal e as palmas das mãos abertas, viradas ao céu - como já vira os marroquinos fazerem na obra aquando das suas preces - fez frente à viatura que se aproximava. Quem conduzia o carro, sabia bem de quem se tratava. Não porque se detetasse, logo à primeira vista, que os sitiados eram portugueses; eles até podiam ser espanhóis ou italianos, mas, pela indumentária, árabes é que eles não seriam mesmo. E foi por isso que o enviado de Alá, resolveu parar, sem receio. Tivessem os portugueses a infeliz ideia de exibir, na tola e no corpo um turbante, uma gilaba ou um albernoz,  mesmo que fosse só como recordação, e nunca aquele condutor marroquino tinha parado a sua carrinha de caixa aberta naquele ermo.
            Mas, agora, um novo problema surgia: é que o homem, a quem podemos atribuir o epíteto de socorrista, não pescava uma única palavra de francês, espanhol e, ainda menos, de português. Perante esta embaraçosa situação, o Santos que, pelos vistos, percebia alguma coisa de mímica, lá se fez entender ao socorrista. E, gesto p'ra cá, gesto p'ra lá, ficaram a saber que a Barragem estava apenas a uns três quilómetros dali. O que, sobremaneira, os animou. Foi então que o Santos tentou fazer entender ao marroquino que precisavam do seu auxílio no sentido de os rebocar - no sentido figurado, já se vê – indo à frente, a abrir caminho e, deste modo, já o Opel Rekord 1900, podia chegar, em segurança, às portas da Barragem. Mas o maometano, ou por não perceber a jogada, ou por ter mais que fazer, marimbou-se na rudimentar mímica do Santos e, a todo o gás, desapareceu naquela noite escura como breu, para não mais ser visto.
            Com tudo isto, já se perdera quase uma hora e a situação pouco mais tinha evoluído. Ao menos, tinham ficado a saber que a Barragem estava ali relativamente perto. Perto para o Santos, que não para o Silveira, e já vão ver o porquê. É que o condutor tinha de conduzir e, para isso, ia dentro do carro, mas então quem é que orientava o rumo, em plenas estrada cheia de curvas, numa noite carregada de escuro? Como não havia por lá mais ninguém, era claro que o guia só podia ser o Sete Línguas! Este, a princípio, recusou tal ideia, alegando que, além de ser o patrão, também tinha os pés feitos num nó, tão doridos estavam. E argumentava:
            — Ó Santos, eu mal sinto os pés! Tenho a certeza de que o sangue já nem circula por aqui, e agora tenho que fazer de guia?
            — Ó Silveira, você vai à frente, de braços abertos, com dois cigarros acesos, um em cada mão e, assim, chegamos ao raio da Barragem, sãos e salvos. Porque, se você continuar na sua, a teimar em não alinhar como guia, o que pode acontecer é que eu, não conseguindo vislumbrar a berma da estrada, me despiste e vamos os dois bater com os cornos lá no fundo do precipício. E o carro, esse, fica no fundo do vale, feito em bosta. Agora escolha!
            O Silveira ainda aguentou uns quinhentos metros, a trote, mesmo parando e retomando a marcha várias vezes, mas depois, chegou o fim. O corpo humano não é de ferro. Há limites para tudo e também para os pés do "patrão" que, agora, numa situação de subalternidade, já não mandava nada, nem, tão pouco, nos pés.
            Os pés, como se sabia, estavam no fim, mas a cabeça, essa ainda funcionava. Ao ralenti, mas funcionava. Tanto assim era, que o dono dos pés, e dos sapatos novos, lembrou-se que tinha uma alternativa que, até então não lhe tinha ocorrido: era descalçar os malditos sapatos e trotar descalço. Que diabo, em piso asfaltado que mais queria ele? Descalçou-se e trotou. Os pés, agora livres de engulhos, já eram lubrificados pelo sangue que, antes encontrara o caminho obturado.
            Depois desta tortura, chegaram ao portão da Barragem. O Santos dirigiu-se ao guarda de serviço e este, simpático, já a fazer-se à gorjeta, chamou o eletricista de turno que, de pronto, e de modo fácil, resolveu aquele intrincado problema elétrico na instalação do Opel Rekord 1900, a que o Sete Línguas chamava a sua bomba.
            Dadas as gorjetas e feitos os agradecimentos, com vénias e tudo, lá vieram aquelas duas almas meias depenadas e bastante constrangidas, estrada N19 fora, até El Aioun, onde o Santos deixou o "patrão" Silveira e seguiu até ao aldeamento do estaleiro, onde arrumou a viatura. Eram para aí umas onze da noite.
            Mas, durante esta última fase da viagem, como se o sofrimento não bastasse, o Silveira ainda teve que ouvir um raspanete do Santos por causa do raio das línguas:
            Dizia o chauffeur:
            — Então, você é que era o tal Tradutor, que vinha para Marrocos fazer de intérprete e eu é que tive de falar com as gajas? E com o gajo da carrinha? Se não fosse eu, com a minha mímica, ainda agora lá estávamos, à espera de não sei quê. O Silveira não gostou e ficou um bocado agastado com o inoportuno provocador, mas não retorquiu. Ele bem sabia que o Santos era chanfrado da mona e, se o chateasse mais, ainda era capaz de o deixar a ele e ao carro ali no meio da estrada e caminhar a pé no resto do percurso.
            A bomba, essa ficava à guarda do chauffeur até ao dia seguinte, altura em que o dono iria buscá-la, para ser ele próprio a desfrutar daquela máquina. O dono do carro andava a tirar a carta e, segundo a lei, mesmo em Marrocos, sem a permis de conduire, ainda não se encontrava habilitado a pegar naquela ou em qualquer outra bomba. Mas a obtenção da carta estava para breve.

Extrato do livro "DEGRAUS E MARCOS DA VIDA", Vol. II
Nota: O Santos era encarregado de Armaduras e chefe do Silveira. O Silveira, que se dizia licenciado em Botânica pela Universidade de Coimbra, era um ex-Tradutor que, por tão fraco desempenho, foi despromovido a Armador de Ferro.


[1] Povo do norte de Marrocos, com língua própria, não oficial
[2] Sapatos
[3] Era o patrão, porque, hoje, ele pagava tudo
[4] O Diabo mas montanhas


quinta-feira, 20 de março de 2014

- Acordo ou desAcordo Ortográfico -

Com A.O. ou sem A.O.?


Só sei, pelo que vou lendo. Nada mais.

Já que tanto se tem falado (bem e mal) do diabólico Acordo Ortográfico, entendo que, também eu, tenho o direito (limitado) de opinar sobre tal temática. Para tal, peço desculpa aos verdadeiros intelectuais pela ousadia, por algum erro ou imprecisão que, na minha análise, possa ter cometido.

Há tempo, antes de me pôr a escrever o livro "Degraus e Marcos da Vida", e tendo em conta o tão propalado e controverso tema, fiz umas consultas ligeiras e li:
- "Texto mais antigo da Língua Portuguesa" (séc. XII)
- "Crónica de D. Fernando", por Fernão Lopes (séc. XV)
- "Poemas Manuscritos de Bocage" (séc.XVIII)
- Eça de Queiroz e Almeida Garrett (séc. IXX)
- Guerra Junqueiro (séc. XX)
- "Método Elementar de Latim" (1935)
- Novos Prontuários Ortográficos - 3 unidades (2008)
- Priberam - Dicionário Web (atual)

 Daqui concluí que, devido às metamorfoses operadas na Língua Portuguesa desde, pelo menos, o ano de 1175, passando por todos os séculos dos séculos, eu sentia a obrigação de me adaptar à nova realidade, sob pena de ficar para trás. Apercebi-me de que, através dos tempos, entre Acordos e Desacordos, muita coisa mudara na Língua Portuguesa. E a verdade é que, até certa altura, pelo menos até ao ano de 1500, ninguém tinha noção do que era essa coisa de Brasil.
Perante estes e outros factos históricos, achei que seria sensato alinhar pela linha do projeto do A. O., que, pasme-se, data de 1990.
Se os outros através dos séculos, acharam que deviam atualizar-se, porque havia eu de, logo à partida, ficar para trás não acompanhando o progresso?
Deparei-me, então, com coisas como estas:
latim português espanhol francês italiano
accidens acidente accidente accident incidente
cursus estrutura estructura structure struttura
objectu objeto objeto objet ogetto
projectu projeto proyecto projet projetto
uictoriam vitória victória victoire vittória
Algum Português já antes desatualizado, sendo algum do Bocage:
Vergílio espôsa baptismo offendem
Luiz prêsa baptizado elles
Víctor bella vans immutável
têrmo mortaes innocente damnados
pharmácia víctima taes producção
êste systema Deos cousa
Já toda a gente aceitou a evolução?

Nota: o Português vem do Latim, mas, também do Grego.

Há pessoas, que à conta do A.O., insistem em escrever mal certas palavras, tentando baralhar quem as lê.
facto / fato / adepto / compacto/ pacto / pato / opção/ secção, etc., são exemplos de que as consoantes inseridas são para serem lidas.
latim português latim português
.Albam .branca .Octo .oito
.Argentum .prata .Per .por
.Bellum .guerra .Quinque .cinco
.Clarus .ilustre .Septem .sete
.Crinis .cabelo .Solemmnis .solene
.Dictactura .ditadura .Vacca .vaca
.Labor .trabalho .Volo .querer
Foi por tudo isto que adotei o chamado novo A. O.
Veja-se a documentação no topo da folha.
Nota: Com a presente compilação, apenas pretendo justificar e dar resposta à opção tomada, no que concerne ao método utilizado na feitura dos textos do referido Livro. 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

CENA IXX - Nas CONSTRUÇÕES TÉCNICAS em MARROCOS - Controlo de Velocidade



11.9 – Os gendarmes e os esquemas
a) - O controlo de velocidade -
A polícia marroquina tinha uns métodos muito sui generis de atuar. Fosse no controlo de trânsito e aplicação das multas respetivas, na intervenção em qualquer desavença, ou mesmo no ato de subtrair acompanhantes do interior das viaturas, eles, polícias, atuavam de uma maneira muito peculiar. Por exemplo: fui, por várias vezes, mandado parar pelas patrulhas de trânsito, tanto à saída como à entrada de Oujda. Algumas vezes, o argumento por eles utilizado era um alegado excesso de velocidade, noutras, era um controlo de luzes das viaturas. Mas tudo isso seria normal, não fora os métodos e apetrechos utilizados.
Em todas as madrugadas, saíam da cidade de Oujda, a caminho da obra, pr'aí uma dezena de viaturas. Quase todas Renault 4L, de cor branca, com matrícula marroquina, mas conduzidas por portugueses, normalmente chefes de serviço. A polícia marroquina bem sabia disso. Eles conheciam-nos à légua, como se diz por cá. E como lhes cheirava a dinheiro, colocavam-se de atalaia, em pontos estratégicos, para tentar sacar alguns dirhams ao nosso pecúlio. Como se compreende, o responsável por cada uma dessas carrinhas não viajava sozinho. Havia chefes de equipa e manobradores portugueses que, tendo optado por levar a família de Portugal para Marrocos, aqui alugaram casa. Estava então combinado que o seu transporte de e para a obra seria garantido por meio das ditas R4L. No entanto, em certas ocasiões, quando, por qualquer motivo, havia uma vaga, até alguns dos nossos empregados marroquinos chegaram a viajar connosco. E foi mesmo num dia em que essa situação se verificou, quando eu trazia, de boleia um serralheiro marroquino, que habitava em Oujda e pertencia à oficina do Pimpão, que fui intimado a parar por uma patrulha de gendarmes. No caso do controlo de velocidade, foi assim como se descreve.
Quando, à saída de Oujda, a caminho da obra, depois de ter percorrido aquela reta, de uns quatrocentos metros, onde se situava a delegação do Ministério dos Transportes, fui mandado parar por uma patrulha de gendarmes. Aqui, no termo do dito tramo, e ao sinal da placa circular de Stop, parei. Parei e esperei pela abordagem das autoridades. Os guardas, aproximaram-se, e, já fartos de saber que o fulano que conduzia a Renaul 4L era português, lançaram um olhar frio, misto de arrogância e ameaça, ordenando (em francês, agora traduzido):
— Bom dia!
— Bom dia! – respondi.
— O senhor vai passar para cá os documentos. – e eu entreguei-lhes os documentos. Viram, reviram e disseram:
— Agora, vai ter que pagar trinta dirhams pela multa do excesso de velocidade em que circulava. – ordenaram.
Eu, que já sabia como é que aquela cena das multas funcionava, retorqui:
— O quê? Excesso de velocidade? Nem pensem! Eu vinha para aí a uns 37 ou 38 km/h, não mais.
— Não, não! O senhor, que bem sabe que, aqui, o limite de velocidade é de 40 km/h. Como vinha a muito mais, está em transgressão.
Na época, ainda não existiam as pistolas de controlo de velocidade, quanto mais estas sofisticadas maquinetas eletrónicas, que os maganos utilizam nos esconderijos só para nos lixarem o dinheiro e, muitas vezes, a própria carta de condução. Ora, por isso mesmo, eu sabia que eles estavam a atuar a sentimento e não com qualquer base credível que os habilitasse a aplicar-me qualquer coima. E foi com o propósito de confrontá-los com aquele, quanto a mim, precário argumento, que lhes perguntei:
— Como é que os senhores gendarmes, que não possuem qualquer equipamento eletrónico que vos permita concluir a que velocidade é que eu circulava, justificam essa vossa ação de pretenderem aplicar-me uma coima por uma infração que não cometi?
Os tipos, mostrando impaciência, reagiram assim:
— Bem, o senhor vai com pressa, e como nós estamos a acabar o turno, a multa fica por quinze dirhams e não se fala mais nisso.
— Não pago trinta, nem pago nada! Aliás eu não vinha em incumprimento. – ao que os gendarmes reagiram:
— Repare o senhor: quando avistámos a viatura no início da reta, pusemos os segundos do relógio a zero; agora, assim que passou naquela árvore de tronco pintado de branco, o tempo decorrido foi de trinta e dois segundos. Ora, como a distância entre os dois pontos é de quatrocentos metros garantidos, o tempo gasto nunca poderia ser inferior a trinta e seis segundos. É por isso que tem que pagar a multa.
Eu, ainda disse:
— Isso não é fiável! Logo, entre o tempo que decorre entre o vislumbrar a viatura e pôr o cérebro a raciocinar para, depois, acionar o botão do relógio vai um tempão. Este lapso de tempo repete-se na chegada, certamente. Além disso, a árvore está a mais de trinta metros do lugar onde a patrulha se encontra, o que vai, com toda a certeza, distorcer a imagem do momento da passagem em frente à árvore.
Eles estavam tão fartos de conversa fiada quanto eu, mas, no propósito de despachar freguês, e no sentido de abreviar a cena, tentaram novo desfecho, agora mais barato.
— Pronto. A multa fica por dez dirhams, e vamos à vida.
Foi então que o sacana do serralheiro marroquino, a quem eu tinha dado boleia, e viajava no banco de trás, puxou de uma nota de dez dirhams e, num ápice, à socapa, passou-a para as unhas do polícia. Este mandou-me seguir viagem, mas eu, que me tinha apercebido daquela operação da passagem da massa, ripostei, assim:
 — Eh pá, quanto deste ao gendarme?
— Dei os dez dirhams!
— Quem mandou? Não tinhas que os ter dado!
E, indignado, no sentido de me vingar pelo gamanço, exigi:
— Agora, os senhores gendarmes vão ter que passar o recibo da multa.
A esta minha exigência respondeu o chefe da patrulha:
 — Recibo? Nós só passaríamos recibo, se a multa tivesse ficado nos 30 dirhams inicias, mas como isso não aconteceu, como lhe fizemos um grande desconto, o senhor não vai ter direito a nada. E, e… já vai com sorte!
Queria ele dizer na dele, que o melhor que eu tinha a fazer era dar de frosques, dali para fora, com direção e sentido da Obra.
Senti-me revoltado, danado até. Voltei-me então para o palerma do serralheiro e desabafei:
— Ah grande sacana! Agora, o que eu devia fazer era pôr-te na rua! Devias era ir a pé, para não seres burro.
E, para descarregar o resto da ira, ainda disse ao rapaz:
— Além de não veres nem um cêntimo desse dinheiro, nunca mais te dou boleia!
O rapaz, dali até à Obra, talvez uns 35 kms, lá foi tentando convencer-me de que pagou os dez dirhams com medo de se tornar num alvo de retaliações por banda dos gendarmes. É que, segundo contou, sabia de casos de perseguições a amigos seus por banda da polícia, devido a situações idênticas. Isto é, ficavam marcados pelo olho sinistro dos bófias, que até passavam palavra aos demais. Enquanto os seus rostos não fossem esquecidos, andavam a ser permanentemente saqueados. Não sei bem se seria assim, mas, em Marrocos, onde se regateava o preço da multa como se estivéssemos na Medina a negociar uma manta, um albernoz, meia dúzia de figos-da-Índia ou um quilo de tâmaras, tudo era possível.
Passados dois dias, o chefe da oficina de serralharia, o Pimpão, veio ter comigo e pediu-me para esquecer o incidente, até porque o rapaz, mesmo tendo em conta as limitações locais, era um ótimo serralheiro. Isto quer dizer que, além de eu ter dado o dinheiro ao gajo, ainda lhe dava boleia, sempre que havia vaga.
 Eles tinham um grande pavor dos gendarmes, mas aquela cena do controlo de velocidade, não deixava de ter a sua parte cómica.

 Muitos condutores portugueses queixavam-se de que a polícia, sempre que os mandavam parar na cidade e topassem que a acompanhante era uma moça marroquina, ordenavam a imediata saída daquela, deixando o condutor como que apeado, a falar sozinho.

Texto extraído de "DEGRAUS E MARCOS DA VIDA", Volume II.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Cena XXII-Duplos ou Sósias, são atores portugueses



     Que grande novidade! São tugas!...

     Embora os sistemas não sejam exatamente iguais, a fraude está bem patente em qualquer deles. E, ao que parece, sempre com atores portugueses no elenco.
     Segundo o calendário Gregoriano (o nosso), corriam os anos de 1976, 1977 e 1978, enquanto por terras do Reino de Marrocos, e segundo o calendário muçulmano, se assinalavam os correspondentes anos de 1398, 1399 e 1400. E foi, precisamente, no nosso ano de 1976 que as Construções Técnicas foram de abalada até Marrocos Oriental, para aí, a uns 40 kms da cidade de Oujda, iniciarem a construção de uma gigantesca fábrica de cimento. Era a Cimenterie de l'Oriental. Ainda hoje - e durante muitas mais décadas - quem viajar pela EN 6, entre Oujda e El Aioun, poderá admirar aqueles esbeltos edifícios fabris que, no dizer da empresa inglesa (Oscar Faber & Partners), projetistas e fiscais da construção do empreendimento, era uma relíquia "perdida" no meio do planalto desértico com vista para o médio Atlas.
     O número que vou considerar, não sendo fidedigno não andará muito longe da realidade, se vos disser que neste empreendimento trabalharam cerca de 1500 pessoas, sendo que, cerca de 700 eram portuguesas. Como os portugueses eram muitos, as falcatruas e o oportunismo tinham que, de modo percentual, acompanhar o vasto lote lusitano. Então, além dos sornas, que para lá foram enviados pela Sede, depois de terem passado através das largas malhas da triagem, em que uma grande parte nunca tinha visto uma obra, nem ao longe, e passavam grande parte do tempo nas camaratas, fingindo-se doentes, também os xico-espertos dos semi-analfabetos e os de todo iletrados, vislumbraram um método que, a troco de uns 10 ou 20 dirhams, - conforme os casos - conseguiriam "tirar" a "permis de conduire". 
     Como é que a coisa funcionava? Como ninguém sabia uma única palavra de francês - e muito menos de árabe - a resposta aos questionários orais apresentados pelas entidades marroquinas, era dada por um ou dois intérpretes portugueses, cada qual em sua sessão. Lembro-me do Vieira e do Andrade e Silva, que, além de saberem à brava do Código de Estrada, também dominavam, com à-vontade, a língua de Victor Hugo. Um deles, o Vieira, pela sua vivência em Oujda, onde, há mais de vinte e cinco anos, era empregado num armazém de materiais de construção, até escrevia e falava árabe. 
     E era assim: a pergunta saía da boca do agente marroquino; o intérprete perguntava, o aluno não sabia, mas, como o esquema já tinha sido ensaiado, este nem sequer precisava de acenar com a cabeça, se sim, não ou talvez, pois que, ali ao lado, se perfilava a sua bengala. E insistia o inquiridor marroquino: - "Que ce qu'il dit?" - ao que o sapiente intérprete, depois de ouvir uma qualquer asneirada por parte do examinando, respondia limpinho, a contento, à questão formulada. 
     Tenho ideia de que não houve cão nem gato - a maioria dos quais nem a terceira classe tinha -  que não tivesse saído de Marrocos com a cartinha na lapela. E era assim que eles, quando, depois, vinham a Portugal, na sua nova "voiture", se apresentavam aos familiares e vizinhos, fazendo-os crer que, aquilo do tirar a carta num país estrangeiro, ainda por cima árabe, em que as letras mais parecem enguias entrelaçadas, não era para qualquer um. Tinha que ser um fulano possuidor de uma capacidade acima da média, como eles, para o conseguir.
     Na linha do português de então, a continuidade do portuga de agora. Duplo ou Sósia, que importa? São atores portugueses que, em termos de maestria, pedem meças aos demais. E mai nada!





sábado, 23 de novembro de 2013

Cena XVIII-O engº Marteleira na Cimpor-1976


- O batismo do engenheiro Marteleira, lá nas alturas –

            Este engenheiro estagiário era um daqueles fulanos que, de tão atípico, dava gosto ouvir o pouco que ele tinha para dizer.
            Creio que era natural e residente na povoação de Marteleira, Lourinhã e, soube mais tarde, que ele chegou a ser técnico da Câmara Municipal da Lourinhã. Como pessoa, era um fulano pouco expressivo, algo tímido, mas, se puxassem por ele, sempre dava troco a uma qualquer conversa. Desde que o tema não abordasse política, ele, de modo mais ou menos comedido, ia a todas. O Marteleira só não gostava de que lhe falassem de política, porque, nesse campo, queria manter, a todo o custo, um segredo que, para mim e mais algumas pessoas do escritório, já não o era de todo. E o que é que o levava a tentar esconder a sua tendência política? Era pelo simples (?) facto de ser simpatizante do CDS, de Freitas do Amaral. Pretendia ele passar despercebido no meio daquela multidão de comunistas (muitos); socialistas (poucos); sociais-democratas (poucochinhos) e direitistas, que se soubesse, só ele… O Marteleira estava mesmo em franca minoria. Na sua maneira de ver e no seu dizer, se os gajos da Comissão de Trabalhadores descobrissem que ele era do CDS, estava feito ao bife.
            Ele, como já disse, era engenheiro civil, na qualidade de estagiário e uma das coisas de que ele não gostava de fazer era ir à obra. Fora atirado para o Controlo e no escritório é que ele se sentia bem. Sempre era mais confortável do que ter de ir para a obra apanhar o tal irrespirável ar fabril. Mas ele estava enganado e mal informado, porque, qualquer que fosse a atividade específica que lhe tivessem confiado, para quem estava a dar os primeiros passos, era fundamental adquirir a raiz e as bases. Para isso, devia fazer vários périplos pela obra a fim de muito observar, questionar, muito ouvir e, finalmente, fazer a sua análise.
Tudo isto para dizer que eu, notando nele essa pecha, o incitava a ir às frentes de trabalho de modo a enriquecer a sua bagagem e conhecimentos. Foi por isso que um dia o convidei a acompanhar-me.
            — Ó engenheiro Marteleira, amanhã, pelas 10 horas, vou levá-lo a dar uma volta à obra. – convidei.

            — Ó sr. Caria, amanhã não sei se posso! Sabe… tenho umas coisas para fazer…

            — Ah tem? E você pensa que, nesta obra, haverá alguém que não tenha coisas para fazer? Não podendo ser amanhã, então vamos agora!

            — Agora? Agora não! Não estou mentalmente preparado para isso.

            — Mentalmente? Ah isso agora é assim? Bem, então fica marcado para as dez de amanhã. – marquei eu.

            — Então está bem! – concordou o engº Marteleira.

            E foi por volta da hora combinada que saímos do escritório a caminho da obra. Mas começar por onde? Por que edifício? Naquela fase de obra, achei que o melhor era levá-lo à Torre Dopol. Havia algumas atividades a decorrer naquele edifício que, acreditei, seriam interessantes para ajudar a desemburrar[1] o nosso amigo Marteleira. Só que esses trabalhos a decorrer na Torre Dopol, situavam-se no cimo do edifício, cuja cota altimétrica era de + 82,00m.
            E, comigo à frente da reduzida comitiva (eu e ele), começou-se a pisar os primeiros degraus de madeira que, sem espelhos, poderiam causar alguma impressão a quem olhava para baixo, para o chão, através dos intervalos. Mas essas escadarias exteriores ao edifício, e a este amarradas, com patamares a cada 2,50m (sensivelmente), eram feitas em estrutura tubular, com corrimão e tudo. Mas continuando a subida, chegámos ao segundo patamar, o que, para o aprendiz de engenheiro, já começava a meter alguma impressão. Do modo como se agarrava ao tubo do corrimão, dava para perceber que o Marteleira sofria de vertigens.
Bem, na verdade tenho uma vaga ideia de que, com avanços e paragens, chegámos ao topo do edifício vinte minutos depois, coisa que, numa subida em condições normais, era feita em quatro ou cinco. Mas este intrincado episódio não se esgotou por aqui, porque o nosso homem, deveras incomodado e de tez esbranquiçada, nem teve pachorra para ver os trabalhos. Ele só pedia para descermos. Agora, o pior é que tínhamos que fazer a descida. Como era a descer, e partindo do princípio que para baixo todos os santos ajudam, pensei ser muito mais fácil do que havia sido para cima. Logo na entrada do, antes último e agora primeiro, lanço de escada, o engº Marteleira, rodando sobre o seu eixo no sentido de procurar a melhor posição para atacar a descida, e não lhe achando o jeito, perguntou-me:

— Ouça lá! Você acha que eu devo descer de frente ou de costas?

— Se você descer de costas, o mais certo é ter de galgar os degraus todos de uma vez, até ao chão. Portanto, desça do modo como eu vou fazer. – aconselhei.

Com isto, eu só queria que ele chegasse lá abaixo inteiro. Mas com aquela minha piada, o homem ficou psicologicamente afetado. Tanto assim, que, agarrando-se ao corrimão que nem uma lapa, deu para perceber que o melhor era pedir o almoço lá para cima, porque, pelos vistos, não íamos sair dali tão cedo. Depois, ou ele embarcava no cesto de uma grua, ou tínhamos que recorrer a um helicóptero de aluguer para o tirar dali.
Devagar, devagarinho, comigo à frente, para transmitir ânimo ao meu companheiro de aventura, lá descemos até à base. Já em solo firme, sentindo-se são e salvo, o engº Marteleira, com a voz embargada pela emoção e pelo cansaço, com a tez amarelada que nem limão maduro, ainda arranjou fôlego para me dizer:

— Porra, sr. Caria, nunca mais me apanham na obra!

E, que se saiba, até hoje, nunca mais se viu o Marteleira na obra. Mas eu sabia lá que o homem sofria de vertiginite aguda[2]!...




[1]  Instruir
[2] Possuidor de fortes vertigens
Extrato de "DEGRAUS e MARCOS da VIDA", Volume II

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O Escanção de Lisboa


O Sr. Fernando Branco explicando ao Sá, como provar o tinto

( Onde se fala do Sá e do escanção de Lisboa)
        Por força de eu trabalhar e residir fora de Vale da Pinta, já não via o meu amigo Fernando Sá fazia tempo, mas como ia visitar a terra e aquela malta com uma certa periocidade, foi sem surpresa que, numa tarde de domingo, me encontrei com o Sá. Depois dos habituais cumprimentos, fomos comemorar o encontro à taberna do Valentim do Berto. E comemorar com tinto carrascão, como era da praxe no concelho. Um copo para mim, um copo para o Sá, e eis que este meu amigo, mal acabou de sorver a primeira golaça, teve um tal engasganço que, por pouco não se foi abaixo do fôlego. O rapaz, que até era (e é) sportinguista, ficou vermelho que nem um tomate saloio, tal foi o sufoco. Eu, como se compreende, naquele momento fiquei preocupado, mas nem cinco segundos haviam passado quando, para meu espanto, o meu amigo Fernando desata a rir numa tal galhofada, que dir-se-ia que o gajo estava a delirar e não estaria bom da cabeça. Mas tudo não passou de um pequeno susto. O Sá, perante a minha aflição, tentou, e conseguiu, explicar-me o que lhe ia na mona: o que lhe tinha provocado aquela fugaz paranoia. Antes, porém, para quem não conhece a região e mais os costumes das suas gentes, vou situar a cena. Na região do Cartaxo, era natural que o dono de uma adega, quando de porta aberta, oferecesse um copo de vinho a quem passava. Era, por um lado, a maneira de ser cortês respeitando a tradição e, por outro, um modo de dar a saber a terceiros que fulano tinha uma “rica pinga”.
Neste caso concreto, o Sá estava a fazer uma obra no Cartaxo para o Sr. Fernando Branco e, por via disso, foi por este convidado a deslocar-se ali ao lado, à adega, para saborear a qualidade superior daquele vinho tinto, no dizer do Branco. Este, Sr. Fernando Branco, sendo natural de Vale da Pinta, onde possuía uma bela vivenda que utilizava aquando das suas espaçadas visitas à terra, residia, no entanto, há mais de três décadas em Lisboa, onde exercia a atividade de industrial da construção civil.
Voltando, então, à taberna do Valentim, em Vale da Pinta, e com o amigo Sá de traqueia desimpedida, foi-me, assim, relatado o modo como surgiu o convite e o diálogo estabelecido entre os dois Fernandos: um Sá e outro Branco.

— Ó Fernando, venha ali comigo, à minha adega, provar um vinho tinto da minha lavra, que eu mesmo fiz, para consumo próprio e também para oferecer a alguns engenheiros e arquitetos lá de Lisboa. Eu acho que você até vai ficar banzado com a qualidade daquela “pomada”.

O Sá que, naquela hora, até estava a necessitar de algo escorregadio para lhe lubrificar a garganta, acedeu ao bem-vindo e honroso convite. Seguindo os passos do anfitrião, depressa entrou na adega e estacou, atrás do Branco, em frente ao depósito que continha o tinto.
Comparando com o tempo agreste, pelo calor, que se fazia sentir na obra e na rua, ali dentro estava-se muito bem. Agora, só faltava o resto, que era, nem mais nem menos, do que chegar-lhe à boca o desejado copo de vinho, rotulado pelo dono como uma coisa muito especial.
O Fernando Branco, todo emproado e com um manejar de mãos que mais parecia um ilusionista em pleno exercício, pega no manípulo do espicho, roda-o com requinte, 90˚para a esquerda e, dentro do copo, começou a caír o vinho tinto, escuro como breu e, com uma auréola espumejante que, só de ver, fazia crescer água na boca.
O dono do vinho, com um tal cuidado para que a espuma não transbordasse, rodou o manípulo 90˚ mas, desta vez, no sentido inverso e fechou o espicho sem verter uma gota sequer. Lentamente estendeu a mão com cerimónia e, com o copo preso em anel,  por apenas dois dedos, pô-lo diante do Sá, dizendo:

— Ó Fernando, venha lá daí, aqui ao quintal, para melhor poder observar a cor deste néctar. Prove lá a especialidade!

O Sá, agarrou no copo à balda, de mão cheia, acompanhou o Branco até à claridade exterior e, aí, à boa maneira ribatejana, sem preceito nem técnica, fez pontaria à boca e zás! Num trago, emborcou o conteúdo do copo, garganta abaixo, sem pestanejar. Depois, arrotou duas vezes, respirou fundo, limpou duas lágrimas que o vinho fizera soltar dos olhos, recompôs-se e disse:

— Sim, senhor, que rico vinho tinto que o Sr. Branco aqui tem! Isto é uma autêntica maravilha! Nunca na vida bebi nada que se parecesse com isto!

O Fernando Branco ficou estupefacto. Ele nem queria acreditar no que tinha acabado de ver e ouvir. Conteve-se por instantes e, depois, num tom pouco amistoso, disse com voz grave:

— Eu nem quero acreditar no que estou a presenciar! Então o  Fernando, nem sequer provou o vinho e está a dizer-me que ele é muito bom? Dá para ver que você diz isso só para me fazer jeito!

O Sá, ao ouvir tal comentário da boca do Sr. Fernando Branco, ficou estarrecido, confuso e perturbado. Mas, então, o que é que ele tinha feito de mal, que comportamento menos digno teria tido, para ser tão duramente criticado? O Sr. Branco teve o descaramento de afirmar que ele, Sá, não tinha provado o vinho? E como o Sá até jogou futebol, tinha, com toda a certeza no ouvido, aquele “slogan” em que se enaltece quem ataca: “A melhor defesa é o ataque!” E, com base nesta frase, resolveu, não atacar, mas contra-atacar. E, em sua defesa, disse:

— Então, se eu bebi um copázio deste tamanho, num abrir e fechar de olhos, como é que o Sr. Fernando Branco me vem criticar afirmando que eu nem sequer provei o vinho?

Responde-lhe o Branco, do alto dos seus conhecimentos de enologia:

— É evidente que o senhor não provou o vinho… o senhor tragou-o, o que não é a mesma coisa! Então o Fernando pegou no copo, abriu as glândulas e verteu de uma só vez o seu conteúdo e quer agora fazer-me crer que o provou? O senhor omitiu, pura e simplesmente a apreciação organoléptica do néctar e isso é indesculpável.

Perante o silêncio e o olhar esbugalhado do Sá, o Sr. Fernando Branco, num tom mais calmo, começa a lição deste modo:

— Ó Fernando, ao contrário do modo como o senhor agiu, vou fazer-lhe uma pequena demonstração daquilo que você devia ter feito e não fez. Então é assim: o gesto requer classe e elegância. É preciso segurar o copo com apenas dois dedos, assim, para que o calor da mão não altere a temperatura e as caraterísticas do produto. Depois, verifica-se a cor e a consistência. Em seguida, leva-se o copo ao nariz para sentir o aroma e o buquê. Só depois, então, o copo vai à boca. Sorve-se um pequeno gole, mas antes de engolir faz-se com que o líquido percorra todos os cantos da cavidade bucal, estimulando as glândulas gustativas. Por fim, deglute-se. Assim, sim! Só procedendo deste modo, o Fernando está apto a responder ao desafio de quem lhe propõe uma prova de vinho.

O Fernando Sá, que já nem sabia como dar a volta à situação, encheu-se de brio e disse.

— Sim, senhor, agora é que eu já percebi! A partir de agora, acho que já estou apto a fazer uma boa prova de vinho! O Sr. Branco faça o favor de voltar a encher o copo, porque, desta vez, a coisa vai sair bem!

Desta vez, foi o Sr. Fernando Branco que ficou sem fala: quedo e mudo. Mesmo assim, tentando disfarçar a sua irritação, disse:

— Era o que mais faltava! Agora, depois de ter encharcado as suas glândulas gustativas com uma autêntica enxurrada de vinho, acha que ainda tem alguma sensibilidade no palato para poder apreciar alguma coisa? Valha-o Deus, amigo Fernando! Vá lá ao seu trabalho e, um dia destes, voltaremos cá para que se possa tirar a prova dos nove e do vinho.

É que, apesar de o meu amigo Sá ter saído da adega um tanto sequioso e desconfortável, não tinha perdido nada com a lição. Até porque, doravante, já poderia ensinar a um qualquer fulano da terra, como se devia tirar proveito de um bom vinho, por via de uma boa análise oral e bocal. Sem estragar, claro. Assim ele se viesse a safar na segunda oportunidade que lhe ia ser dada.
O adiamento do evento, para que o meu amigo tivesse uma nova oportunidade, não iria causar neste assim tanta ansiedade, já que, no dia seguinte, o patrão Branco, como homem de palavra que era, teve a hombridade de formular novo convite ao Fernando Sá, a fim de voltar a testar a sua evolução enológica.
Texto extraído de "DEGRAUS E MARCOS DA VIDA", VOLUME II.